terça-feira, 13 de setembro de 2016

D’este viver aqui neste papel descripto Cartas da Guerra – António Lobo Antunes Organização – Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes



António Lobo Antunes é para mim o maior e melhor autor português contemporâneo, tenho praticamente todos o livros que ele escreveu e já os li quase todos e interesso-me por tudo o que tenha a ver com ele, sua obra e vida.
Naturalmente que quando houve toda esta “agitação” em torno do filme realizado pelo Ivo Ferreira baseado neste livro, fiquei curioso e com uma grande vontade de o ver, mas antes de o ver gostava de ler esse famoso livro que serviu de base ao filme.
Por sorte possuo o livro que me tinha sido oferecido à tempos atrás mas ainda não o tinha lido e fui logo lê-lo.
A história deste livro é curiosa, apesar das cartas terem sido escritas por António Lobo Antunes à sua primeira esposa Maria José, foram as suas filhas (Maria José e Joana Lobo Antunes) que a pedido da sua mãe as publicaram após a sua morte.
António Lobo Antunes em janeiro de 1971, com 28 anos de idade, formado em medicina à pouco mais de um ano, casado também à menos de seis meses e com a mulher grávida, segue para Angola como alferes médico afim de cumprir os dois anos de serviço militar em pleno auge da guerra colonial.
Como todos os outros militares embarca no navio Vera Cruz em direção a Angola e logo no navio começa a imensa escrita da correspondência entre ele e a esposa.
Apenas interrompida quando da ida de férias a Lisboa e depois quando da vinda da esposa e da filha para Angola quando foi colocado em Marimba em abril de 1972, sendo retomada no período em que a esposa foi internada em Luanda devido a uma hepatite entre agosto de 1972 e janeiro de 1973, terminando nessa altura, quando tem alta e regressa para Marimba para junto do marido, voltando todos para Lisboa em março de 1973.
António Lobo Antunes quando chega a Angola é colocado na zona leste do país, na cidade de Gago Coutinho, uma área isolada, junto da fronteira com a Zâmbia onde a guerra era particularmente dura.
Como atrás disse António Lobo Antunes praticamente desde o primeiro dia iniciou a sua correspondência com a mulher e é essa correspondência que nos é dada a ler, sem qualquer tipo de censura, nela António Lobo Antunes mostra todo o seu amor e desejo pela esposa, o sofrimento por estar longe, separados por milhares de quilómetros, a saudade e a angústia.
Mas mais que todo esse amor,  saudade e desejo, António Lobo Antunes mostra-nos também a guerra, a vida militar em Angola, o stress da guerra, o isolamento, estar constantemente em alerta, não dormir e não conseguir descansar durante dias seguidos, comer mal, não ter água e condições mínimas de higiene, as idas aos aquartelamentos longínquos, participar em ações de guerra, assistir a ferimentos graves e a mortes tanto de um lado como noutro.
Apesar de tudo isto António Lobo Antunes também relata o seu dia a dia, o seu relacionamento com os outros militares, com a sociedade civil (portuguesa e angolana), os seus serviços extras como médico a dar consultas à população, mostra também a sua preocupação com as coisas materiais, a procura de casa em Lisboa para viverem, a falta de dinheiro, os exames da faculdade da esposa e evidentemente a gravidez da mesma e a sua relação com a restante família. 
Também a parte literária não é esquecida, nestas cartas pede livros, dá a sua opinião sobre esses mesmo livros e autores, e fala já com a sua ironia da vida literária em Portugal, mas acima de tudo vai confidenciando à sua esposa como lhe vai correndo a escrita de um seu primeiro livro.
Este é um livro muito emocionante, são as palavras de um apaixonado que é colocado numa situação extrema, de separação, isolamento e dureza incomparável, mas é ao mesmo tempo duro e assertivo, um testemunho de um período tenebroso que milhares de jovens que tal como António Lobo Antunes tiveram de atravessar e que do qual muitos não regressaram ou então regressaram com feridas profundas, tanto físicas como psicológicas e que infelizmente foram muito maltratados por quem mais os devia proteger após a guerra, mas isso são outros assuntos que não são para serem discutidos neste blog…
Recomendo a leitura deste livro, mesmo para quem não aprecie os livros de António Lobo Antunes, é totalmente diferente da sua ficção, esta foi (e ainda é) a realidade…


quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Piloto de Guerra" - Antoine Saint-Exupéry


Antoine de Saint-Exupéry fez o seu batismo de vôo aos 12 anos e aos 22 inicia a sua carreira como piloto militar e em 1939 na Força Aérea Francesa inicia a sua participação na guerra contra a Alemanha Nazi.
Apesar deste livro ter sido editado em 1942, a acção passasse 1940, em plena invasão de França pelos nazis, Saint-Exupery com o posto de capitão pertence à esquadrilha de reconhecimento 2/33, as forças armadas francesas estão a ser dizimadas pelos alemães e cada vez as missões que são atribuídas à sua esquadrilha são quase impossíveis de realizar com sucesso, e é uma missão dessas que é atribuída a Saint-Exupéry, fazer um vôo de reconhecimento sobre a cidade de Arras na parte ocupada pelos nazis.
No avião com Saint-Exupéry seguem o tenente Dutertre e o artilheiro e juntos partem para a missão sem saber se regressam.
A partir daqui inicia-se a viagem, uma viagem física, uma missão concreta atribuída, mas também uma viagem introspetiva, iniciática e filosófica, em que Saint-Exupéry nos vai expondo como se fosse um monólogo os seus pensamentos sobre a guerra, a França, o caos que se seguiu à invasão, a fuga das populações, a má organização política e militar francesa, o poderio militar e industrial alemão e também a amizade e camaradagem dos que apesar de todas as vicissitudes de uma derrota iminente continuam a lutar.
Estes pensamentos por vezes são interrompidos por acções reais como manobras com o avião e a fuga a um ataque de caças alemães, finalmente chegam à zona de Arras onde têm de baixar a altitude para fotografarem as posições do inimigo, onde são brutalmente bombardeados pela artilharia anti-aérea alemã, aí os pensamentos de Saint-Exupéry viram-se para a guerra, o sentido do dever, a morte, o medo ou a indiferença de morrer.
A missão é concluída com sucesso e no regresso (esta será sem dúvida a parte mais filosófica do livro), Saint-Exupéry debata-se com as razões da guerra, porquê combater, mas também com a Humanidade, o que é o Homem, o individual e o coletivo, e o seu amor à França.
Para além do "Principezinho" livro que li há muitos anos, nunca tinha lido nada de Saint-Exupéry, mas adorei este livro, é pequeno mas cheio de conteúdo, coloca questões que cada vez mais são pertinentes, demonstra um pensamento e uma sensibilidade sem precedentes, li esta reedição dos "Livros do Brasil" que tem a particularidade de ter sido traduzida pelo poeta Ruy Belo, o que traz ainda mais beleza ao texto.
Pena a sua morte prematura em 1944, (ainda hoje por explicar) igualmente num vôo de reconhecimento no sul de França, porque de certeza que para além dos excelentes livros que nos deixou, mais nos iria deixar. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Coleção "Clássicos para leitores de hoje" - Relógio D'Água



Recentemente uma das (para mim) melhores editoras do país, a Relógio D'Água lançou uma coleção de livros para comemorar o aniversário da criação da mesma em 1983.
Esta coleção com o nome de "Clássicos para leitores de hoje" é uma das maiores iniciativas editoriais deste ano, não só porque nos proporciona a edição e reedição de grandes obras e autores da literatura, como também disponibiliza esses mesmos livros a preços bastante convidativos, entre os 5€ e os 10€.
Ou seja por preços quase simbólicos temos acesso ao melhor da literatura, com autores como Proust, Jane Austen, Montaigne, Gogol, Dickens, Sá Carneiro, etc. e engane-se quem pensar que os livros são de fraca qualidade, porque não são, são edições cuidadas com um excelente design, capas interessantes e todas as obras trazem um prefácio para melhor introdução ao autor e à obra.
Durante este ano serão editadas 35 obras, mas continua em 2017 sendo 50 livros no total a serem editados.
Como podem perceber pelas fotos estou a fazer a coleção e tenciono comprar todos, é uma oportunidade única para quem gosta de ler clássicos e ter uma biblioteca com os mesmos em casa.

sábado, 20 de agosto de 2016

"1984" - George Orwell


Este é um dos livros que há muito queria ler, mas que por inúmeras razões foi sempre adiada a sua leitura, até que finalmente me decidi a lê-lo.
Foi o último livro que George Orwell escreveu e que (pode-se dizer) o levou à morte, foi inspirado na sua experiência pessoal durante a guerra civil de Espanha na qual ele participou pelo lado dos republicanos.
Estamos (talvez) no ano de 1984 em Londres, o mundo tal como o conhecíamos deixou de existir, depois de inúmeras guerras e revoluções apenas existem três países a Oceânia (onde se passa a acção), a Eurásia e a Lestásia, todos eles com regimes totalitaristas e em guerra contínua.
Na Oceânia, mais propriamente em Londres o regime é o “socing” (socialismo inglês), uma doutrina que advêm do socialismo mas que se tornou num regime centrado no “Partido”, que controla tudo e todos e tem como símbolo o “Grande Irmão” uma espécie de ser omnipotente e omnipresente a quem todos devem obedecer. Neste mundo existem três espécies de classes sociais, o “partido interno”, chefes e dirigentes directos do partido, o “partido externo” os funcionários do partido (tal como os nossos funcionários públicos uma espécie de classe média) e os “proles”, o povo que pouco mais serve para trabalhar e procriar.
É neste mundo que encontramos Winston um homem de meia-idade, pertencente ao “partido externo”, funcionário do “ministério da verdade” uma espécie de ministério da propaganda onde todo o passado é alterado conforme as vontades do partido, as notícias são apagadas e alteradas, a literatura censurada e reescrita de forma a que tudo o que “Partido” dissesse e fizesse fosse sempre verdade, mas Winston tem dúvidas, apercebe-se que certas coisas não “batem certo” e isso vai fazendo com que secretamente se vá virando contra o “Partido”, entretanto conhece Júlia também ela uma rebelde e apaixonam-se, coisa totalmente proibida visto que o amor, o prazer a sexualidade eram considerados crimes. Vão se encontrando às escondidas e através de O’Brien, um dirigente do “partido interno”, ingressam na “fraternidade” uma suposta organização secreta que tem por objectivo derrubar o “Partido” e o “Grande Irmão” e restabelecer a democracia.
Naturalmente são apanhados e presos e é nesta última parte que Orwell acentua a parte mais filosófica desta obra, durante o período de prisão, tortura e doutrinação de Winston é questionada e argumentada a luta do bem contra o mal, o individualismo contra o colectivo, a liberdade e o totalitarismo e o poder, em suma a condição humana.

É uma obra muito forte, apesar de escrita pós segunda guerra mundial e fazendo uma crítica muito feroz aos regimes totalitários da época, principalmente ao Estalinismo, mas também ao Nazismo, continua actual e faz-nos pensar e olhar para o rumo político que o mundo actual está a tomar, o ressurgimento da extrema-direita, o fundamentalismo religioso, o xenofobismo, os Trumps que por aí andam, a tirania dos mercados… Enfim todos os ingredientes para que a nossa civilização tenha também um fim triste.            

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Céu Nublado com Boas Abertas - Nuno Costa Santos


Nuno Costa Santos, não é a primeira vez que escreve um livro, já tem vários editados, além disso é argumentista, cronista, dramaturgo, crítico literário, etc. etc.. Mas este "Céu Nublado com Boas Abertas" é o seu primeiro romance.
Apesar de ser um livro de "estreia", não deixa de ser um livro muito bom e até certa medida original.
Tudo começa com o personagem (talvez o próprio autor) na casa do seu avô em Lisboa, que ao fazer arrumações e escolha de livros, depara-se com uma série de papéis que seriam uma espécie de autobiografia que o seu avô fez mas que nunca publicou e junto a esses papéis encontra uma nota que diz "Se tiver um descendente que se interesse pela escrita, peço-lhe para ir a São Miguel e trazer no regresso um conjunto de histórias do presente da Ilha"
Com este mote inicia-se duas viagens em simultâneo, uma no presente na Ilha de São Miguel, para onde o autor parte para satisfazer o desejo de seu avô e escrever um livro sobre os Açores e outra viagem ao passado, à vida do seu avô, que sofre de tuberculose e que após o casamento parte para o continente, para um sanatório no Caramulo para os tratamentos.
Assim se vão cruzando as duas vidas, neto e avô separadas por várias décadas, o autor no presente em São Miguel, ilha em que viveu na sua juventude, onde se vê envolvido com uma série de personagens como por exemplo o Laureano "veneno", pequeno vigarista, Neuza, stripper e namorada de Laureano, Marinho que vive com o desgosto de uma noite na década de 80 do século passado ter sido barrado à porta da discoteca, um inspetor da judiciária que se delicia com comédia stand up Sueca, um pescador que parece Céline, um estrangeiro que parece Kafka e até um chinês que é mordomo numa festa do Sr. Santo Cristo, paralelamente ou melhor encadeadamente temos também a vida do avô, o serviço militar durante o qual conhece a futura mulher e avó do autor e contrai igualmente a tuberculose, o casamento e a ida para o sanatório no Caramulo, onde esteve quatro anos sem ver a esposa, a vinda da mesma para ao pé dele, a gravidez e regresso a São Miguel, as dificuldades no tratamento e as operações.
Tudo isto nos é relatado de uma forma introspetiva, melancólica, como uma busca da sua própria existência e razão de ser, (certas partes remetem-me para "A Montanha Mágica" de Thomas Mann) e com a particularidade de termos imagens (fotografias) dos personagens dos manuscritos e livros, colocados no texto como complemento.
Neste livro existe também outra personagem e temática, a mais importante de todas, os próprios Açores, a insulariedade, o seu povo as suas tradições, a sua luta contra o isolamento, as tempestades, vulcões e terramotos, esse povo profundamente religioso e introvertido, mas há também a natureza, a fauna, a flora essa beleza que nos enche os olhos e o coração, (quem conhece os Açores sabe bem do que eu estou a falar).
Concluindo este livro é muito bom de se ler, sem grandes complicações mas muito bonito, com uma ponta de humor e ironia, mas também com muito amor.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

"O Corsário dos Sete Mares" - Deana Barroqueiro


E cá estou novamente de volta a um dos géneros literários que mais aprecio e a uma autora que descobri recentemente, mas que me conquistou em absoluto com a sua escrita e livros.
Deana Barroqueiro (cuja apresentação fiz na minha opinião sobre outro livro escrito por ela e lido anteriormente por mim, "O Navegador da Passagem"), volta ao seu tema preferido as "Descobertas" e a expansão marítima portuguesa e pegando numa personagem real e num livro escrito à quatrocentos anos atrás, leva-nos numa viagem cheia de perigos, aventuras e atribulações ao Oriente Português do séc. XVI.
O herói deste livro é Fernão Mendes Pinto, o autor e escritor dessa obra prima da literatura Portuguesa e até mesmo mundial que é a "Peregrinação" cujas aventuras e desventuras são nos contadas pela autora.
Tendo por base a "Peregrinação" e muitos outros livros e documentos da época, Deana Barroqueiro com a sua escrita fluída, simples mas muito rigorosa consegue transformar este livro não num "resumo" ou numa simples "adaptação" da "Peregrinação" mas sim num excelente romance histórico onde para além da história e vida de Fernão Mendes Pinto, são também relatados vários acontecimentos importantes da História de Portugal e da conquista do Oriente, como por exemplo os cercos de Diu, a conquista de Malaca, a chegada ao Japão e a introdução das armas de fogo nesse país, as inúmeras guerras contra os reinos muçulmanos e Indianos e a participação portuguesas nas guerras nos vários reinos que existiam pelas ilhas de Java, Samatra e na Malásia e Birmânia. Para além dos acontecimentos históricos, alguns narrados na primeira pessoa por Fernão Mendes Pinto outros narrados por outras personagens em forma de relato ou conversa com Fernão Mendes Pinto, também é descrita de uma forma exemplar toda a sociedade tanto portuguesa como dos povos do oriente os seus usos, costumes, linguagem, cultura e religião de uma forma pormenorizada, chegando a pequenos pormenores como os trajes, a comida a forma de se sentar, sendo os capítulos passados no Japão e na China um grande exemplo disso.
O livro em si é grande, mas como disse anteriormente fácil de ler, apesar de muito pormenorizado a história "agarra-nos" do princípio ao fim, os acontecimentos sucedem-se uns atrás dos outros mas sem baralhar o leitor, sempre que há saltos temporais ou no espaço, a própria autora avisa os leitores em pequenos interlúdios e faz a explicação do que se passa.
A acção concentra-se nos primeiros dez anos que Fernão Mendes Pinto está no oriente, dez anos esses onde ele mais viaja e mais aventuras e desventuras tem. Além disso o livro está dividido em sete partes, que representam os "sete mares"  e dentro de cada parte há vários capítulos, é interessante também cada capítulo ter uma espécie de apresentação ou introdução onde a autora coloca um pequeno provérbio, citação ou poema dos povos dos sítios onde esse capítulo se passa e também um extrato de um documento (livro, carta, etc.) português da época que ajuda a contextualizar a acção.
Este "Corsário dos Sete Mares" é sem dúvida um grande livro, sei da própria voz da autora que ele levou cerca de quatro anos a ser escrito e isso nota-se bem no rigor histórico do livro.
É daqueles livros que eu recomendo muito, para além de ser uma excelente forma de entretenimento é também uma enorme fonte de conhecimento histórico e cultural e se anteriormente já andava cheio de vontade de ler a "Peregrinação", agora ainda mais tenho... Pena esse livro não estar (como deveria estar por ser uma obra prima da literatura nacional) mais divulgado e a preço acessível como todas as outras grande obras literárias nacionais, como por exemplo (como não devia deixar de ser) "Os Lusíadas" de Camões... Sei que a "Relógio D'Água" tem uma edição em português moderno em dois volumes que custa por volta dos 40€... Fica aqui a quem de direito (editoras e afins) uma sugestão para revitalizar a "Peregrinação" e pôr Fernão Mendes Pinto no devido lugar em que merece estar, a par dos grandes escritores Portugueses de sempre.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

"O Demónio da Depressão Um Atlas da Doença" - Andrew Solomon


Novamente por motivos profissionais estive ausente por algum tempo, mas felizmente desta vez a parte profissional foi mais "leve" e tive algum tempo disponível para me dedicar à leitura, li vários livros mas o que mais me interessou foi este "O Demónio da Depressão Um Atlas da Doença" de Andrew Solomon.
Andrew Solomon escritor e jornalista Norte-Americano (com dupla nacionalidade Britânica), traz-nos este fantástico livro, sobre uma doença que afeta milhares de pessoas e que ao mesmo tempo é tão desconhecida como constrangedora para quem sofre dela.
Escrito e vivido na “primeira pessoa” Andrew Solomon através da sua experiência pessoal com a depressão e juntamente com um exaustivo trabalho de investigação jornalística, científica e com entrevistas a pessoas que também sofrem e sofreram de depressão, escreveu o livro que é considerado “um dos maiores tratados já escritos sobre o tema”.
Apesar de ter tido uma infância e adolescência feliz, sem problemas de maior, Andrew Solomon depois de ter feito o seu mestrado na Inglaterra, já de novo nos Estados Unidos, estabelecido e com um início de carreira promissor, após a morte da sua mãe afunda-se numa depressão grave que o irá perseguir até aos dias de hoje.
A partir daí toda a sua vida vai se alterar por completo, entra numa depressão profunda que dura vários anos, que o torna incapaz de fazer até as mais pequenas coisas como por exemplo tomar banho, sair da cama, etc. Solomon descreve com pormenor todas as fases da sua depressão, a espiral que o leva ao fundo quase ao ponto do não retorno, descreve também a sua luta para sair dessa mesma depressão, a ajuda dos amigos, a entrega que o seu pai teve a ele, a sua relação com os psicoterapeutas e psiquiatras, até que consegue com a ajuda dos médicos e da  medicação recuperar.
Assim ele consegue manter-se estável durante uns tempos, mas ao sentir-se bem deixa a medicação e igualmente devido ao fim de um relacionamento volta a cair na depressão e a repetir todo o processo até conseguir novamente recuperar.
Toda esta parte da vida do autor é descrita por ele mesmo, com pormenor e sem qualquer pudor, pondo à luz do dia tudo o que de bem e (principalmente) de mal fez.
Após esta parte mais biográfica, Solomon entra na parte mais técnica onde vai mostrar-nos numa linguagem acessível mas onde se nota bem todo o seu estudo, investigação e conhecimento sobre a depressão.
Sendo assim ele vai abordar vários temas como a evolução da doença e o tratamento da mesma, debruçando-se sobre a medicação (é um grande defensor da utilização de fármacos para estabilizar a doença), a psicanálise, os tratamentos alternativos e a institucionalização de doentes.
Mostra-nos também o impacto da depressão nas pessoas e na sociedade, a exclusão e a incompreensão, a que os "depressivos" estão sujeitos que os pode levar a atitudes mais extremas como o suicídio e à dependência de drogas e álcool (temas sobre o quais este livro capítulos próprios).
Solomon junta a tudo isto uma profusão de entrevistas e histórias de pessoas que tal como ele sofreram e sofrem de depressão, conta-nos a suas experiências, vivências, vitórias e derrotas, histórias de vida, algumas inspiradoras e motivadoras outras de uma grande tristeza e infortúnio.
O livro termina com o capítulo acerca do futuro, as novas descobertas científicas e médicas, as novas terapias e medicação e a esperança que um dia a depressão seja curável.
Este livro é "enorme", tanto em tamanho com em qualidade, todo o texto é acompanhado por notas (o que por vezes torna a leitura um pouco mais difícil) em que o autor nos remete a trabalhos científicos, publicações de especialidade, referencias bibliográficas, enfim um sem número de ligações que provam que este livro é um enorme trabalho de investigação e de amor.
Apesar de ser grande e de ser uma mistura de livro autobiográfico com trabalho científico, adorei-o, fez-me ver a depressão com outros olhos, a compreender certos sintomas que podem não ser nada aos olhos de outros mas que nos deprimidos pode ser a diferença entre a vida e a morte e acima de tudo a não excluir os depressivos e a quem é depressivo ensina a não esconder a doença e acima de tudo pedir ajuda e a lutar pela cura.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

"J" - Howard Jacobson


Este foi um dos livros mais estranhos que li nos últimos tempos, a começar pelo próprio título que me é muito difícil transcrever aqui, sendo o mais aproximado que consegui foi "J".
Neste livro Howard Jacobson autor Inglês com vários livros e prémios literários, transporta-nos para um futuro próximo, numa sociedade aparentemente muito parecida com a nossa mas ao mesmo tempo muito fechada sobre si própria, com um sentimento de culpa muito grande, devido a "aquilo que aconteceu, se é que aconteceu", em que as pessoas são aconselhadas e educadas a esquecer o passado.
Jacobson traz-nos a históra de Kevern um homem na casa dos quarenta anos, um pouco "neurótico" e "desconfiado" e ao mesmo tempo "deslocado", devido à educação e ao passado misterioso dos seus pais, e de Ailinn, rapariga mais jovem, órfã, criada por pais adotivos e igualmente com um passado misterioso que irá ser decisivo para a trama.
Kevern e Ailinn vivem numa pequena cidade perto do mar, uma sociedade fechada, pouco amigável e até mesmo violenta, conhecem-se, (ou são dados a conhecerem-se), apaixonam-se e partir daí a história vai-se desenvolvendo até ao surpreendente final.
Todo a ação é feita de nuances,  de insinuações e referencias a algo que nunca é dito claramente mas que com o evoluir dessa mesma ação vai deixando pistas ao leitor, sobre o que aconteceu, Jacobson utiliza também saltos temporais ao passado, e pequenas histórias que intervalam com a principal, por vezes durante a leitura parece que se perde um pouco o "fio à meada", mas no fim tudo se junta contribuindo para a compreensão da história.
Apesar de estranho e um nadinha confuso por vezes, é de fácil leitura, é também uma crítica à nossa sociedade atual, uma espécie de aviso para nós todos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

"O Meu Mundo não é deste Reino" - João de Melo




Um dos escritores nacionais que muito já tinha ouvido falar mas que nunca tinha lido, era João de Melo.
João de Melo, nasceu nos Açores mas veio ainda criança estudar para o Continente, começou igualmente também muito cedo a escrever, publicou o seu primeiro conto aos 18 anos e partir daí nunca mais deixou de estar ligado à escrita, esteve em Angola durante a guerra colonial (escreveu um livro sobre essa sua experiência de guerra) e é um dos mais activos divulgadores da cultura Açoriana.
"O Meu Mundo não é deste Reino", foi o seu primeiro livro, editado em 1983, já vai na 8ª edição, edição essa que foi toda revista e reescrita pelo autor, e foi essa edição que li.
Assim de repente, posso adiantar que foi o livro mais bonito que li este ano, a par do "Stoner", de John Williams, foi o que eu mais gostei de ler.
O livro como não será de estranhar é passado nos Açores, mais propriamente na ilha de São Miguel, numa freguesia do Nordeste e conta-nos a história dessa freguesia deste a descoberta da ilha e respetivo povoamento até provavelmente aos anos 50 do século XX, apesar da ação principal se situar desde o fim do século XIX até como atrás disse aos anos 50 do século XX.
João de Melo mostra-nos num tom quase místico, melancólico a vida dura dos Açores, o isolamento, a luta contra a natureza, com os vulcões, os terramotos, as tempestades, mostra-nos também a pobreza extrema das populações, as difíceis condições de vida, quase como se fossem náufragos, onde se vivia uma vida inteira sem se sair da freguesia, onde o outro lado da ilha era quase tão longe como o outro lado do mundo, fala-nos também das tradições, da cultura (e falta dela) dos Açores.
A ação propriamente dita, começa com a chegada do padre Governo à freguesia, ainda jovem e idealista e conta-nos a vida de uma série de personagens da freguesia desde esse momento até à morte do padre muitos anos mais tarde.
Temos então o padre, um curandeiro, uma espécie de mendigo/Messias, um regedor tirano, um agricultor pobre com a sua mulher e filhos, ou seja uma profusão de personagens com contornos um tanto ou quanto fantásticos, cujas vidas se entrelaçam numa série de acontecimentos e que tornam o particular no geral.
Neste livro também há uma série de acontecimentos fantásticos como os 99 dias de chuva seguida sem parar, o milagre da primeira missa, a ressurreição de João Lázaro ou o dia em que se viu a outra face do sol, tudo isto são ingredientes que no fim têm como resultado este livro fabuloso, bem ao estilo do realismo mágico sul americano. Para além de tudo isto há também a crítica social, a exploração dos pobres feita pelos grande agricultores, a ausência de organismos estatais que permitiam os excessos e essa exploração dos mais pobres, o analfabetismo das populações, e a crença excessiva na igreja.
Este livro a mim também me diz mais alguma coisa porque vivi nos Açores (ilha do Faial) durante dois anos e já lá estive diversas vezes depois disso e tenho o privilégio de conhecer a mística Açoriana e a insularidade.
Já tenho outro livro dele "Gente Feliz com Lágrimas", o mais conhecido em fila de espera para ler.


domingo, 6 de dezembro de 2015

"Desmobilizados" - Phil Klay


Este é o primeiro livro de Phil Klay, e que livro!!!
"Desmobilizados", tal como o título indica é sobre a guerra, mais propriamente sobre os soldados que lá combateram e o seu regresso à vida "normal".
O autor escrevendo com muito conhecimento de causa, foi soldado nos "Marines" (Fuzileiros) Norte-Americanos, combateu no Iraque em 2007 e 2008, viveu muito de perto a guerra, a vida militar, toda a sua orgânica, sentiu e viu toda a espécie de sentimentos e acontecimentos a que um soldado pode estar sujeito num teatro de operações difícil como foi o Iraque e depois após a sua desmobilização, o regresso a um mundo civil e familiar que nunca mais será visto com os mesmos olhos.
Este livro é composto por doze contos, todos eles diferentes abrangendo um leque variado de situações, tanto no teatro de operações, como por exemplo no conto "OIF", onde de uma forma irónica e através das siglas utilizadas pelos "Marines" se mostra a burocracia da guerra, ou do conto "Oração na Fornalha", onde se mostra através dos olhos do Capelão de uma unidade de "Marines" a violência de alguns soldados e a expiação dessa mesma violência, como na difícil integração e regresso à vida civil e familiar, sendo logo exemplo disso o primeiro conto "Fim de Missão" (publicado pela revista GRANTA americana), que nos mostra através da ligação do soldado com o seu cão de estimação a reaprendizagem da vida doméstica, ou do conto "Histórias de Guerra" que traz-nos um soldado ferido e desfigurado e a sua alegria de viver apesar da sua condição, ou também o conto "O Dinheiro Como Arma", que nos mostra a guerra vista pelo lado de um civil integrado numa ONG e as respectivas "negociatas" e corrupção existente no Iraque para a sua "reconstrução".
Apesar de algumas partes mais violentas, o livro lê-se bastante bem, os contos não são muito extensos mas agarram-nos à sua leitura, são muito bem escritos, como é provado pela série de prémios literários inclusive o "National Book Award"  que Phil Klay recebeu após a sua publicação.
Este livro foi editado pela nova chancela da editora 20/20, "Elsinore", que tem lançado uma série de livros de qualidade e com um aspeto gráfico muito apelativo.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

"O Navegador da Passagem" - Deana Barroqueiro


Um dos livros que li durante esta minha ausência, foi este "O Navegador da Passagem" de Deana Barroqueiro.
Neste livro a autora dá-nos a conhecer um dos maiores "navegadores" Portugueses, Bartolomeu Dias e numa mistura de ficção com realidade conta-nos de uma forma envolvente e agradável dois dos maiores acontecimentos da saga dos "Descobrimentos Portugueses"; a "Dobra" do Cabo da Boa Esperança, que abriu caminho à posterior ida à Índia por Vasco da Gama e o "achamento" do Brasil por Álvares Cabral, dois acontecimentos nos quais Bartolomeu Dias esteve envolvido directamente, principalmente na "Dobra" do Cabo da Boa Esperança.
A estória em si inicia-se com Bartolomeu Dias, que comandava um dos navios que fazia parte da armada de Álvares Cabral, já depois de descoberto o Brasil e no regresso da ida à Índia, justamente na área do Cabo da Boa Esperança vê um cometa e isso traz-lhe um pressentimento desagradável e ao mesmo tempo faz recordar-se das suas anteriores viagens.
A partir daqui a autora através das memórias de Bartolomeu Dias inicia a acção, cruzando as recordações da viagem de descoberta do "Cabo" que tanto marcou Bartolomeu Dias, devido aos infortúnios próprios das viagens de descoberta da época, doenças, conflitos entre a guarnição, conflitos com os nativos, tempestades, acidentes, mas também devido a uma missão que D. João III lhe incumbiu para levar a cabo durante a viagem, que muito o vai transtornar, com a descoberta do Brasil e os dias lá passados com os nativos.
Neste livro para além da parte ficcional, também a parte histórica é excelente e isso advém da experiência e conhecimentos da autora, que para além de ser licenciada em Filologia Românica é igualmente uma especialista nesta época história de Portugal, chegando a trabalhar em comissões de comemoração dos Descobrimentos Portugueses e todo esse conhecimento e experiência vai-se notando ao longo do livro em que todos os acontecimentos históricos relevantes são parte da acção, como por exemplo o reinado de D. João III, a controversa subida ao trono de D. Manuel I, as intrigas na corte, os casamentos e acordos entre Portugal e Castela, toda a situação geo-política da Europa na época, mas também a parte social, o povo e principalmente a vida a bordo tão bem descrita pela autora.
Foi o primeiro livro que li desta autora e gostei bastante, recomendo vivamente principalmente para quem se interessa por esta época áurea de Portugal.

domingo, 11 de outubro de 2015

"Os Melhores Romances Escritos em Língua Portuguesa" - Projecto Adamastor



O "Projecto Adamastor", um site que tem por objetivo disponibilizar obras literárias em português de domínio público em formato digital livre (epub), está a fazer uma espécie de sondagem/pesquisa sobre "os melhores romances escritos em língua portuguesa".
Nesse sentido, fui contatado por um dos responsáveis do projeto, o Ricardo Lourenço, para através do "O que eu leio" divulgar e apelar à participação dessa mesma sondagem/pesquisa.
Sendo assim, quem quiser participar só tem de aceder à pagina do questionário e indicar na vossa opinião quais os dez melhores romances escritos em português e respetivos autores, bastante fácil e rápido.
O questionário está aberto até janeiro do próximo ano, sendo depois nesse mesmo mês divulgados os resultados.
Eu já participei, façam o mesmo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Prémio Nobel da Literatura 2015


E pronto... mais uma vez a academia Sueca atribuiu o Nobel a um escritor, neste caso  uma escritora que eu desconhecia totalmente...
Svetlana Alexievich, Bielorrussa escritora e jornalista é a vencedora do prémio este ano, e esta é a justificação do comité para a atribuição do Nobel:

"Sara Danius, secretária permanente da Academia (a ensaísta sueca sucedeu a Peter Englund em Junho e tornou-se a primeira mulher a exercer o cargo), destacou a “obra polifónica” de Alexievich, que descreveu como “um memorial ao sofrimento e à coragem na nossa época". A escritora bielorrussa inventou “um novo género literário”, disse ainda Danius, considerando que a premiada faz a fusão entre literatura e jornalismo e “criou uma história das emoções, uma história da alma”."

Sei que existe um livro dela publicado em Portugal pela Porto Editora - "O Fim do Homem Soviético – Um Tempo de Desencanto"  e que a nova editora "Elsinore" irá publicar outro durante o ano que vem.
Mais uma vez, os eternos candidatos como o nosso António Lobo Antunes, foram preteridos.
Mais informações sobre esta atribuição do prémio Nobel da literatura deste ano, aqui.

domingo, 20 de setembro de 2015

"Stoner" - John Williams


Como é possível escrever um livro sobre uma pessoa sem ambições, conformada com a vida, que aceita as adversidades praticamente com um "encolher de ombros" e esse mesmo livro conseguir ser de uma beleza indescritível e fazer com que nos apeguemos tanto a essa mesma personagem ao ponto de quase querermos entrar no livro para fazermos alguma coisa contra essa sua apatia...
Pois foi esta sensação que tive ao ler este livro de John Williams.
Em 1910 William Stoner o personagem principal, filho único de um casal de agricultores pobres, por vontade dos pais entra na universidade, para o curso de agricultura, alojando-se em casa de uns primos e trabalhando para eles fora das horas das aulas como forma de pagamento desse mesmo alojamento, vai aos poucos e poucos inserindo-se na universidade e no estudo, não sendo um aluno brilhante vai se "safando" até que um dia no segundo ano tem uma cadeira nova no semestre, Literatura Inglesa dada pelo professor Sloane.
Stoner apaixona-se pela disciplina e troca de curso, faz a licenciatura e é convidado a ficar na universidade para continuar o mestrado. Entretanto rebenta a I Guerra Mundial mas Stoner não se alista e fica a terminar o mestrado.
Após a guerra terminar, Stoner é convidado a ficar na universidade a dar aulas e aí fica até se reformar e morrer.
Mas a vida de Stoner vai ser uma vida apática, conhece e casa com Edith, mas este casamento vai ser sempre um casamento falhado, Edith é uma pessoa fria que casa sem amor com Stoner, têm uma filha que também será usada por Edith para dificultar o seu casamento, também na universidade Stoner tem um grave conflito com um colega que o irá perseguir durante toda a sua carreira, inclusive na única altura da sua vida em que ele é feliz devido a um relacionamento amoroso intenso com Katherine, uma professora assistente mais nova que ele que estava a também a fazer um mestrado na universidade.
Apesar de todas estas vicissitudes Stoner sempre aceitou o seu destino, nunca lutou, a sua única preocupação é a universidade, o estudo e ser um bom professor, nunca quis cargos mais altos e prescindiu do amor e da felicidade em prole disso.
Apesar de aparentemente este livro não ter os ingredientes necessários para não ser um grande livro, é justamente isso mesmo que ele é, um grande livro...
Uma história e uma personagem com uma beleza interior enormes, uma paz de espírito sem precedentes, e por debaixo de uma fraqueza e uma apatia perante as adversidades da vida, encontra-se uma força interior grandiosa e irradiante de uma pessoa que tudo fez para que o seu grande amor e objetivo de vida se concretizassem nos moldes mais corretos e puros.
John Williams ele mesmo uma espécie de Stoner, foi também professor universitário, apenas escreveu quatro livros em vida, nunca alcançou grande sucesso e só anos mais tarde após a sua morte é que este seu livro foi redescoberto e então reconhecido como um excelente livro e ele um excelente escritor.
Pela sua sensibilidade este livro tocou-me e gostei bastante.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

"O Almirante Português" - Jorge Moreira Silva


Este é o primeiro livro de ficção de Jorge Moreira Silva.
Jorge Moreira Silva, é oficial superior da Marinha Portuguesa, (quem me conhece sabe que tenho uma grande ligação com este ramo das Forças Armadas), com cerca de vinte e sete anos de carreira, que já prestou serviços em diversos navios e participou em várias missões importantes, como a da Guiné-Bissau em 1998 ou em Timor em 2000, para além de oficial da Armada é igualmente "Mestre" em História Marítima com diversos livros e artigos científicos publicados.
Ao saber disto tudo, naturalmente que este livro me despertou uma grande curiosidade.
O livro pode ser dividido em duas partes, uma maior onde se passa a maior parte da acção do mesmo e outra mais pequena onde após vários anos depois se mostra o destino das diversas personagens.
A acção inicia-se trinta anos depois dos acontecimentos principais onde uma das personagens está preste a ser enforcado e começa a recordar o passado, aí somos transportados para o fim do século XVIII (1798) período do inicial das guerras Napoleónicas, onde Portugal envia uma esquadra de navios de guerra para o Mediterrâneo comandados por D. Domingos Xavier de Lima, o Marquês de Nisa, personagem principal do livro, para auxiliar a esquadra Inglesa comandada por Lorde Nelson.
Chegados aos Mediterrâneo, os portugueses vêm-se envolvidos em diversos acontecimentos militares como o cerco a Napoleão no Egipto, o bloqueio da ilha de Malta, várias acções contra os piratas do norte de África e a reconquista de Nápoles, episódio esse que será o clímax da acção.
Após estes acontecimentos no Mediterrâneo vem a segunda parte, que trata do destino das diversas personagens durante o resto das guerras Napoleónicas, a fuga da família real para o Brasil, a independência do mesmo, e o início da guerra civil em Portugal entre absolutistas e liberais.
Para além de toda esta parte de acção o livro também tem a parte humana, amor, intriga, traições, política, (principalmente a difícil relação entre Portugal e a Inglaterra), uma panóplia de situações, emoções e acontecimentos que fazem com que este livro seja de uma leitura agradável e envolvente.
De referir, que quase todas estas personagens existiram mesmo e que quase todos estes acontecimentos foram reais, o autor no fim do livro fez uma nota explicativa onde nos mostra o que é história e realidade e o que é ficção, temos também um glossário com os significados dos diversos nomes e expressões náuticas e de marinharia, que a maioria das pessoas não conhece.
O livro é muito interessante, bastante fácil de se ler, a acção é encadeada e coordenada o que torna este livro de rápida leitura, muito ao estilo da famosa saga "Master and Commander" de Patrick O'Brian, também passada na mesma época histórica.
Apenas penso que este livro tem temática para um pouco mais, mas sendo o primeiro livro de um autor que nada tem a ver com a vida literária até acho que está bastante aceitável, espero que o sr. Cmdt Jorge Moreira Silva continue com esta sua "aventura literária" e fico a aguardar o(s) próximo(s) livro(s).

terça-feira, 15 de setembro de 2015

"O Fio da Navalha" - Somerset Maugham


Este é o primeiro livro que leio de Somerset Maugham, escritor britânico que nasceu e morreu em França e que durante a sua longa vida percorreu o oriente, onde foi buscar muita da inspiração para a sua também extensa obra literária, sendo este livro um exemplo disso mesmo.
Este livro de Somerset Maugham, é nos contado na primeira pessoa, sendo o próprio escritor, narrador e participante na acção.
Maugham, numa das suas viagens ao oriente faz uma escala de várias semanas em Chicago, onde é convidado para um almoço por Elliott Templeton, um comerciante de arte e "socialite" Norte -Americano mas radicado em Paris seu conhecido, nesse almoço Maugham conhece a irmã de Elliott, Louisa Bradley, a sua filha Isabel e o respectivo namorado Larry Darrel que é sobre quem se centra toda a acção deste livro.
Larry Darrrel durante a I Guerra Mundial, serviu como piloto da Força Aérea em França, aí vê o seu melhor amigo a morrer para o salvar durante um combate aéreo e isso o vai transformar para o resto da vida.
Com o fim da guerra, após o regresso aos Estados Unidos, Larry começa a namorar Isabel e torna-se noivo dela, mas Larry voltou mudado, não tem interesse por nada, não sente vontade de trabalhar, torna-se apático, mas com com uma enorme sede de conhecimento.
Naturalmente para a efervescente sociedade Norte-Americana da década de 20 do século passado isso é considerado estranho e a família de Isabel tem muitas reservas, mas o amor de Larry por Isabel e de Isabel por Larry é muito forte e vai seguindo em frente apesar de tudo.
Larry decide voltar à Europa, nomeadamente Paris durante dois anos para a sua "busca" de conhecimento e Isabel decide esperar por ele. Ao fim desses dois anos aproveitando uma visita que faz a Paris e ao seu tio Elliott, reencontra Larry que cada vez mais se encontra embrenhado na sua sede de conhecimento, aí Larry que vive como um "asceta" num pequeno quarto alugado, sem se preocupar com conforto ou vida social propõe casamento a Isabel, mas Isabel que oriunda de boas famílias e sempre habituada ao conforto e à riqueza não aceita e rompem o noivado.
Entretanto, Larry desaparece, Isabel volta a Chicago onde casa com Gray Maturin, um jovem corretor na bolsa e os anos passam...
Em 1929 dá-se o "crash" na bolsa, Gray e Isabel perdem tudo, mas o seu tio Elliott que conseguiu passar incólume com a queda da bolsa, ajuda-os, vai viver para a Riviera Francesa e cede a sua casa de Paris a eles, entretanto Larry regressa e reencontra Gray e Isabel, surge uma nova personagem Sophie MacDonald que irá ter um papel preponderante para o desenlace final.
Tudo isto nos é contado através de Maugham que apesar de não ser um amigo chegado das personagens, (e talvez por essa mesma razão, se torna uma espécie de confidente deles), tem muitas conversas e desabafos com elas ao longo dos anos e é através dessas mesmas conversas e desabafos que nos relata a história de Larry e Isabel. Por ele ficamos também a saber o que foi de Larry durante os dez anos que esteve ausente, as suas viagens primeiramente pela Europa e depois pela Índia, país onde esteve durante cinco anos e onde finalmente atinge ou aproxima-se ao tão desejado "conhecimento".
Este livro para além da história de Larry e Isabel, mostra-nos a rápida mudança que houve nas primeiras décadas do século XX, onde em menos de nada se passa de uma sociedade "vitoriana", com classes sociais demarcadas, ao horror da guerra, ao renascimento e à "loucura" da década de vinte e depois novamente à crise e desespero da década de trinta que culminou com outra guerra mundial.
Outra situação também aqui retratada é a sede de conhecimento, mas um conhecimento interior, um misticismo, uma fé em algo superior seja o Deus dos cristãos ou as divindades hindus, que traz a Paz, a santidade e compreensão aos Homens.
Bastante bom e fácil de ler este livro de Maugham, considerado um dos seus melhores.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

"Roma" e "Império" - Steven Saylor


Hoje não venho falar de um livro, mas sim de dois livros...
Como é sabido de quem segue este blog sou um grande fã dos chamados "romances históricos" e umas das épocas e civilizações que mais me fascinam são os Romanos e o seu império.
Como se pode depreender pelo título dos livros, "Roma" e "Império" é sobre esses mesmos assuntos que eles tratam.
Steven Saylor, o autor destes livros é formado em História e também tem este período da História como preferido o que logo daí advém uma segurança quanto ao rigor dos livros em termos históricos.
Mas falando dos livros em si, o primeiro livro a ler é "Roma", que inicia a sua acção na idade do ferro, quando os primeiros povos chegam à região que hoje é Roma e aí se estabelecem, a partir daqui Steven Saylor inicia a sua "história" de Roma através de duas famílias os "Potícios" e os "Pinários" e de um amuleto que representa um deus ancestral, o "fascinum" que é passado de geração em geração pelos personagens acompanham-do-os até ao fim.
No livro "Roma" é descrita a criação da cidade Roma e todas as lendas e acontecimentos relacionados com ela, a vinda de Hércules e a luta dele com o monstro "Caco", Rómulo e Remo, e como Rómulo mata Remo e se torna rei de Roma, os reis que se seguiram, principalmente Tarquínio e o famoso episódio da violação de Lucrécia que faz com que se acabe a monarquia e se dê início à República Romana, o ataque a Roma do traidor Coriolano, (episódio onde se dá a queda da família Potício) o Decínvurato e as dozes tábuas que são a base do direito romano, a invasão e saque de Roma pelos gauleses, as guerras Púnicas com Cartago e o seu general Aníbal, os irmãos Gracos, a ditadura de Sulla e Júlio César e respectivo assassinato.
O período abrangido por este  livro termina com a morte de Cleóptra e Marco António e a coroação de Octávio como primeiro imperador de Roma.
Todos estes acontecimentos são nos descritos através da intervenção e olhar dos membros das famílias Potício e Pinário que foram intervenientes nestes acontecimentos e em que a certa altura se dá a extinção dos Potícios e sua junção aos Pinários.
No segundo livro, já temos Octávio Augusto como primeiro imperador, a época áurea do império e continuamos com a mesma fórmula, agora só temos os Pinários e é através deles que vamos conhecer os imperadores e acontecimentos mais importantes a seguir a Octávio, Tibério e Calígula com os seus excessos e devassidão, o assassinato de Calígula, e como Cláudio se seguiu como imperador, Nero com a sua excentricidade o incêndio de Roma, a perseguição dos cristãos, a entrega do império a Vespasiano após a morte de Nero, os filhos de Trajano o bondoso Tito e depois Domiciano, Trajano com a sua opulência e o livro termina com a morte de Adriano, encerrando assim cerca de mil anos da História de Roma e do seu império.
Estes dois livros estão muito bem conseguidos, Steven Saylor, tal como Max Gallo já tinha feito na sua série "Os Romanos" ao pôr a descrição dos acontecimentos através de intervenientes directos que participam e nos mostram toda a acção, ao longo das épocas faz com que o que poderia ser maçador se torne empolgante e emocionante, faz-nos sentir as emoções, as alegrias, as tristezas, os medos as inseguranças que as pessoas tinham nestas épocas tão conturbadas e efervescentes da história do Homem.
Além disso estes livros são de um rigor histórico excelente, apesar de no primeiro livro ser mais difícil porque a fundação de Roma e os seus primeiros anos são muito "dúbios", Steven Saylor descreve essas épocas e acontecimentos mais pela razão do que pela lenda, sendo exemplo disso as próprias famílias Potícios e Pinários que existiram mesmo.
O segundo livro é muito mais fácil porque a época abrangida é muito estudada e conhecida, sendo fácil seguir o rigor histórico.
Outra coisa que adorei nestes livros para além da acção é a descrição da sociedade Romana, os seus usos, costumes, religiões, mitologias, política, a mutação da cidade em si, o seu crescimento desde uma pequena aldeia até ser o centro do mundo, os seus monumentos, a via ápia, o panteão, o coliseu, a coluna de Trajano, e a sua urbanidade.
Estes livros são a meu ver "obrigatórios" a todos os que se interessam por Roma e pelos Romanos e que queiram saber mais sobre isso através de visão participativa em vez dos livros académicos, gostei imenso e recomendo.


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Reviver o Passado em Brideshead - Evelyn Waugh


O meu interesse neste livro surgiu há uns tempos e esse interesse só prova que a mente humana é uma coisa fantástica... Passo a explicar...
A minha "companheira" é uma seguidora acérrima da série de época inglesa "Downton Abbey" e eu também a vi-a com ela, mas (e aí entra a parte da mente humana/memória) lembrava-me muito vagamente de uma série do mesmo género (com o actor Jeremy Irons) que passou na RTP nos anos oitenta cujo ambiente era muito parecido, a sociedade inglesa do início do século XX e cujo nome ficou-me sempre gravado na memória, "Reviver o Passado em Brideshead".
Entretanto fiz umas pesquisas e descobri que essa série era baseada num livro e resolvi compra-lo para ler.
E aqui fica a minha opinião.
"Reviver o Passado em Brideshead", como atrás referi é passado no período entre a I e a II guerras mundiais, mas é narrada em "flashback".
Tudo começa quando em plena II guerra mundial, na Inglaterra, Charles Ryder, capitão miliciano do exército inglês é colocado mais a sua companhia de soldados numa área rural com uma enorme mansão senhorial que foi cedida ao exército, quando Charles vê onde está e reconhece o sítio, faz um retrocesso no tempo até à sua juventude e inicia a narração das suas memórias relacionadas com o sítio e com a família cuja casa e área circundante pertence.
Quando jovem em Oxford, Charles conhece Sebastian Flyte, outro jovem exuberante, rico e sensível e ambos se tornam muito amigos, mas Sebastian é um jovem que apesar de toda a sua exuberância e alegria tem muitos problemas, vive sob o peso da sua família, principalmente da mãe que apesar de inglesa é uma católica fervorosa que controla os filhos, o pai que se separou da mãe e vive em Itália com a amante, o irmão mais velho também muito controlador e igualmente religioso e Júlia a irmã que também vai ter um papel determinante na vida de Charles.
Ao longo dos anos, Sebastian vai-se degradando, torna-se cada vez mais alcoólico e isso vai causar a separação de Charles com a família Marchmain.
Anos mais tarde, já casado e estabelecido como pintor de sucesso, Charles reencontra Júlia, apaixonam-se e volta a aproximar-se dos Marchmain, até que após a morte do pai de Júlia e Sebastian voltam a separar-se.
Este livro é de uma beleza fantástica, Evelyn Waugh, que apesar do seu "mau feitio", deixou toda a sua mestria aqui, faz um retrato fiel da sociedade da época, dos "loucos anos 20", os excessos de uma juventude, o amor, a amizade e ao mesmo tempo contrapõe com o peso da religião católica, a fé e a falta dela, a rigidez da alta sociedade inglesa, criando um paradoxo com que as personagens tiveram de lidar e fazer as escolhas que determinaram a sua vida futura.
Gostei muito do livro e recomendo.
Para além da série dos anos 80, também foi feito um filme em 2008, que apesar de não estar 100% fiel ao livro, está bastante satisfatório e agradável.

Matilde Campilho




segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Digital vs Papel


Hoje vou falar não sobre um livro específico mas sobre um tema que desde há algum tempo para cá tem vindo a criar muita "discussão" no (vou chamar assim) "meio dos livros".
Qual o melhor suporte para a leitura??? O clássico livro em papel?? Ou a leitura digital???
Neste meu post sobre este assunto, vou apenas dar a minha opinião, mostrar o meu ponto de vista, não vou defender nenhuma das formas de leitura, porque uso ambas.
Eu leio praticamente desde sempre, ainda antes de entrar na escola aos cinco anos, era fascinado pelos livros do "Donald" que o meu pai tinha em casa e queria saber o que os bonecos diziam, quase que obriguei a minha avó a ensinar-me a ler ainda antes de entrar primeira classe, claro que ao entrar na escola e ao longo do meu crescimento aprendi a ler melhor e o meu gosto pela leitura foi evoluindo, e o livro sempre me acompanhou desde aí.
Naturalmente que sempre li em papel, mas desde o advento da tecnologia e com a criação da leitura digital as coisas mudaram um bocadinho...
Há cerca de três anos comprei o meu primeiro tablet e logo aí uma das primeiras coisas que fiz foi instalar aplicações de leitura, decidi experimentar... Sim porque apesar do meu amor aos livros e à leitura, acho que tudo tem uma evolução.
Desde essa altura comecei a ler no tablet, entretanto já troquei de tablet para um melhor e continuei a ler, mas a leitura nos tablets tem desvantagens, a bateria dura pouco e a iluminação é muito forte para se passar muito tempo a ler, os meus olhos e a minha cabeça começaram a sentir-se, então decidi dar o passo seguinte, comprar um leitor digital específico para leitura os famosos "ereaders".
Já tinha pensado nisso anteriormente, mas como lia bem nos tablets achei que apenas ia duplicar os aparelhos e como o tablet serve para muito mais coisas do que só para ler deixei-me ficar, mas pelas razões atrás descritas, a semana passada e após alguma pesquisa sobre os assunto, decidi adquirir um ereader. Dos variados modelos que por aí andam acabei por escolher o "Kobo Aura" vendido pela Fnac.
Escolhi este modelo porque do que investiguei, sempre disseram muito bem do aparelho e pela facilidade e inúmera oferta de ebooks (em português) que a loja da Kobo/Fnac tem.
Estou muito satisfeito, o ereader é muito mais leve que o tablet, a bateria tem uma duração espantosa (carreguei-o quando o comprei, há uma semana atrás, tenho-o usado com alguma regularidade e nem metade gastou), a luminosidade não "fere" a vista é como se estivéssemos a ler em papel, os contras para mim só tenho a apontar o tamanho, preferia um pouco maior este modelo é de 6" (há maiores mas mais caros) e o preço... Acho que para o tipo de aparelhos que são, limitados (apesar de o Kobo ter wi fi e pode-se ir à net nele mas de uma forma limitada), não são tablets e há tablets bem mais baratos...
Agora se prefiro os ereaders ao livro "clássico"??? Evidentemente que não, ler um livro é sempre ler um livro, é uma coisa mágica, o objecto livro está carregado de simbolismo e emoção e nunca irei abdicar disso, aliás continuo a comprar livros como fazia antigamente. Mas o ereader tem outros atributos, a portabilidade, o conforto para mim que ando muito de transportes públicos isso é excelente, levo o ereader no saco ou na mochila, não pesa nada, não ocupa espaço e capacidade de armazenamento também nos permite (como no meu caso que por motivos profissionais por vezes tenho de viajar muito, por largos períodos de tempo e com pouco espaço para levar livros) ter um leque vasto de leitura num espaço mínimo.
Na minha opinião a leitura digital não vai "matar" o livro como alguns "arautos da desgraça" e "velhos do restelo" tanto profetizaram (pelo menos num futuro a curto e médio prazo) mas vem sim complementá-la, acho que quem lê nos ereaders também lê em papel, há situações para ambos os casos, eu pelo menos penso assim, mas acima de tudo acho que mais importante ainda do que o tipo de suporte da leitura, o mais importante é ler, adquirir conhecimento, cultura e prazer, isso sim é mais importante do que tudo o resto.