quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Coleção "Clássicos para leitores de hoje" - Relógio D'Água



Recentemente uma das (para mim) melhores editoras do país, a Relógio D'Água lançou uma coleção de livros para comemorar o aniversário da criação da mesma em 1983.
Esta coleção com o nome de "Clássicos para leitores de hoje" é uma das maiores iniciativas editoriais deste ano, não só porque nos proporciona a edição e reedição de grandes obras e autores da literatura, como também disponibiliza esses mesmos livros a preços bastante convidativos, entre os 5€ e os 10€.
Ou seja por preços quase simbólicos temos acesso ao melhor da literatura, com autores como Proust, Jane Austen, Montaigne, Gogol, Dickens, Sá Carneiro, etc. e engane-se quem pensar que os livros são de fraca qualidade, porque não são, são edições cuidadas com um excelente design, capas interessantes e todas as obras trazem um prefácio para melhor introdução ao autor e à obra.
Durante este ano serão editadas 35 obras, mas continua em 2017 sendo 50 livros no total a serem editados.
Como podem perceber pelas fotos estou a fazer a coleção e tenciono comprar todos, é uma oportunidade única para quem gosta de ler clássicos e ter uma biblioteca com os mesmos em casa.

sábado, 20 de agosto de 2016

"1984" - George Orwell


Este é um dos livros que há muito queria ler, mas que por inúmeras razões foi sempre adiada a sua leitura, até que finalmente me decidi a lê-lo.
Foi o último livro que George Orwell escreveu e que (pode-se dizer) o levou à morte, foi inspirado na sua experiência pessoal durante a guerra civil de Espanha na qual ele participou pelo lado dos republicanos.
Estamos (talvez) no ano de 1984 em Londres, o mundo tal como o conhecíamos deixou de existir, depois de inúmeras guerras e revoluções apenas existem três países a Oceânia (onde se passa a acção), a Eurásia e a Lestásia, todos eles com regimes totalitaristas e em guerra contínua.
Na Oceânia, mais propriamente em Londres o regime é o “socing” (socialismo inglês), uma doutrina que advêm do socialismo mas que se tornou num regime centrado no “Partido”, que controla tudo e todos e tem como símbolo o “Grande Irmão” uma espécie de ser omnipotente e omnipresente a quem todos devem obedecer. Neste mundo existem três espécies de classes sociais, o “partido interno”, chefes e dirigentes directos do partido, o “partido externo” os funcionários do partido (tal como os nossos funcionários públicos uma espécie de classe média) e os “proles”, o povo que pouco mais serve para trabalhar e procriar.
É neste mundo que encontramos Winston um homem de meia-idade, pertencente ao “partido externo”, funcionário do “ministério da verdade” uma espécie de ministério da propaganda onde todo o passado é alterado conforme as vontades do partido, as notícias são apagadas e alteradas, a literatura censurada e reescrita de forma a que tudo o que “Partido” dissesse e fizesse fosse sempre verdade, mas Winston tem dúvidas, apercebe-se que certas coisas não “batem certo” e isso vai fazendo com que secretamente se vá virando contra o “Partido”, entretanto conhece Júlia também ela uma rebelde e apaixonam-se, coisa totalmente proibida visto que o amor, o prazer a sexualidade eram considerados crimes. Vão se encontrando às escondidas e através de O’Brien, um dirigente do “partido interno”, ingressam na “fraternidade” uma suposta organização secreta que tem por objectivo derrubar o “Partido” e o “Grande Irmão” e restabelecer a democracia.
Naturalmente são apanhados e presos e é nesta última parte que Orwell acentua a parte mais filosófica desta obra, durante o período de prisão, tortura e doutrinação de Winston é questionada e argumentada a luta do bem contra o mal, o individualismo contra o colectivo, a liberdade e o totalitarismo e o poder, em suma a condição humana.

É uma obra muito forte, apesar de escrita pós segunda guerra mundial e fazendo uma crítica muito feroz aos regimes totalitários da época, principalmente ao Estalinismo, mas também ao Nazismo, continua actual e faz-nos pensar e olhar para o rumo político que o mundo actual está a tomar, o ressurgimento da extrema-direita, o fundamentalismo religioso, o xenofobismo, os Trumps que por aí andam, a tirania dos mercados… Enfim todos os ingredientes para que a nossa civilização tenha também um fim triste.            

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Céu Nublado com Boas Abertas - Nuno Costa Santos


Nuno Costa Santos, não é a primeira vez que escreve um livro, já tem vários editados, além disso é argumentista, cronista, dramaturgo, crítico literário, etc. etc.. Mas este "Céu Nublado com Boas Abertas" é o seu primeiro romance.
Apesar de ser um livro de "estreia", não deixa de ser um livro muito bom e até certa medida original.
Tudo começa com o personagem (talvez o próprio autor) na casa do seu avô em Lisboa, que ao fazer arrumações e escolha de livros, depara-se com uma série de papéis que seriam uma espécie de autobiografia que o seu avô fez mas que nunca publicou e junto a esses papéis encontra uma nota que diz "Se tiver um descendente que se interesse pela escrita, peço-lhe para ir a São Miguel e trazer no regresso um conjunto de histórias do presente da Ilha"
Com este mote inicia-se duas viagens em simultâneo, uma no presente na Ilha de São Miguel, para onde o autor parte para satisfazer o desejo de seu avô e escrever um livro sobre os Açores e outra viagem ao passado, à vida do seu avô, que sofre de tuberculose e que após o casamento parte para o continente, para um sanatório no Caramulo para os tratamentos.
Assim se vão cruzando as duas vidas, neto e avô separadas por várias décadas, o autor no presente em São Miguel, ilha em que viveu na sua juventude, onde se vê envolvido com uma série de personagens como por exemplo o Laureano "veneno", pequeno vigarista, Neuza, stripper e namorada de Laureano, Marinho que vive com o desgosto de uma noite na década de 80 do século passado ter sido barrado à porta da discoteca, um inspetor da judiciária que se delicia com comédia stand up Sueca, um pescador que parece Céline, um estrangeiro que parece Kafka e até um chinês que é mordomo numa festa do Sr. Santo Cristo, paralelamente ou melhor encadeadamente temos também a vida do avô, o serviço militar durante o qual conhece a futura mulher e avó do autor e contrai igualmente a tuberculose, o casamento e a ida para o sanatório no Caramulo, onde esteve quatro anos sem ver a esposa, a vinda da mesma para ao pé dele, a gravidez e regresso a São Miguel, as dificuldades no tratamento e as operações.
Tudo isto nos é relatado de uma forma introspetiva, melancólica, como uma busca da sua própria existência e razão de ser, (certas partes remetem-me para "A Montanha Mágica" de Thomas Mann) e com a particularidade de termos imagens (fotografias) dos personagens dos manuscritos e livros, colocados no texto como complemento.
Neste livro existe também outra personagem e temática, a mais importante de todas, os próprios Açores, a insulariedade, o seu povo as suas tradições, a sua luta contra o isolamento, as tempestades, vulcões e terramotos, esse povo profundamente religioso e introvertido, mas há também a natureza, a fauna, a flora essa beleza que nos enche os olhos e o coração, (quem conhece os Açores sabe bem do que eu estou a falar).
Concluindo este livro é muito bom de se ler, sem grandes complicações mas muito bonito, com uma ponta de humor e ironia, mas também com muito amor.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

"O Corsário dos Sete Mares" - Deana Barroqueiro


E cá estou novamente de volta a um dos géneros literários que mais aprecio e a uma autora que descobri recentemente, mas que me conquistou em absoluto com a sua escrita e livros.
Deana Barroqueiro (cuja apresentação fiz na minha opinião sobre outro livro escrito por ela e lido anteriormente por mim, "O Navegador da Passagem"), volta ao seu tema preferido as "Descobertas" e a expansão marítima portuguesa e pegando numa personagem real e num livro escrito à quatrocentos anos atrás, leva-nos numa viagem cheia de perigos, aventuras e atribulações ao Oriente Português do séc. XVI.
O herói deste livro é Fernão Mendes Pinto, o autor e escritor dessa obra prima da literatura Portuguesa e até mesmo mundial que é a "Peregrinação" cujas aventuras e desventuras são nos contadas pela autora.
Tendo por base a "Peregrinação" e muitos outros livros e documentos da época, Deana Barroqueiro com a sua escrita fluída, simples mas muito rigorosa consegue transformar este livro não num "resumo" ou numa simples "adaptação" da "Peregrinação" mas sim num excelente romance histórico onde para além da história e vida de Fernão Mendes Pinto, são também relatados vários acontecimentos importantes da História de Portugal e da conquista do Oriente, como por exemplo os cercos de Diu, a conquista de Malaca, a chegada ao Japão e a introdução das armas de fogo nesse país, as inúmeras guerras contra os reinos muçulmanos e Indianos e a participação portuguesas nas guerras nos vários reinos que existiam pelas ilhas de Java, Samatra e na Malásia e Birmânia. Para além dos acontecimentos históricos, alguns narrados na primeira pessoa por Fernão Mendes Pinto outros narrados por outras personagens em forma de relato ou conversa com Fernão Mendes Pinto, também é descrita de uma forma exemplar toda a sociedade tanto portuguesa como dos povos do oriente os seus usos, costumes, linguagem, cultura e religião de uma forma pormenorizada, chegando a pequenos pormenores como os trajes, a comida a forma de se sentar, sendo os capítulos passados no Japão e na China um grande exemplo disso.
O livro em si é grande, mas como disse anteriormente fácil de ler, apesar de muito pormenorizado a história "agarra-nos" do princípio ao fim, os acontecimentos sucedem-se uns atrás dos outros mas sem baralhar o leitor, sempre que há saltos temporais ou no espaço, a própria autora avisa os leitores em pequenos interlúdios e faz a explicação do que se passa.
A acção concentra-se nos primeiros dez anos que Fernão Mendes Pinto está no oriente, dez anos esses onde ele mais viaja e mais aventuras e desventuras tem. Além disso o livro está dividido em sete partes, que representam os "sete mares"  e dentro de cada parte há vários capítulos, é interessante também cada capítulo ter uma espécie de apresentação ou introdução onde a autora coloca um pequeno provérbio, citação ou poema dos povos dos sítios onde esse capítulo se passa e também um extrato de um documento (livro, carta, etc.) português da época que ajuda a contextualizar a acção.
Este "Corsário dos Sete Mares" é sem dúvida um grande livro, sei da própria voz da autora que ele levou cerca de quatro anos a ser escrito e isso nota-se bem no rigor histórico do livro.
É daqueles livros que eu recomendo muito, para além de ser uma excelente forma de entretenimento é também uma enorme fonte de conhecimento histórico e cultural e se anteriormente já andava cheio de vontade de ler a "Peregrinação", agora ainda mais tenho... Pena esse livro não estar (como deveria estar por ser uma obra prima da literatura nacional) mais divulgado e a preço acessível como todas as outras grande obras literárias nacionais, como por exemplo (como não devia deixar de ser) "Os Lusíadas" de Camões... Sei que a "Relógio D'Água" tem uma edição em português moderno em dois volumes que custa por volta dos 40€... Fica aqui a quem de direito (editoras e afins) uma sugestão para revitalizar a "Peregrinação" e pôr Fernão Mendes Pinto no devido lugar em que merece estar, a par dos grandes escritores Portugueses de sempre.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

"O Demónio da Depressão Um Atlas da Doença" - Andrew Solomon


Novamente por motivos profissionais estive ausente por algum tempo, mas felizmente desta vez a parte profissional foi mais "leve" e tive algum tempo disponível para me dedicar à leitura, li vários livros mas o que mais me interessou foi este "O Demónio da Depressão Um Atlas da Doença" de Andrew Solomon.
Andrew Solomon escritor e jornalista Norte-Americano (com dupla nacionalidade Britânica), traz-nos este fantástico livro, sobre uma doença que afeta milhares de pessoas e que ao mesmo tempo é tão desconhecida como constrangedora para quem sofre dela.
Escrito e vivido na “primeira pessoa” Andrew Solomon através da sua experiência pessoal com a depressão e juntamente com um exaustivo trabalho de investigação jornalística, científica e com entrevistas a pessoas que também sofrem e sofreram de depressão, escreveu o livro que é considerado “um dos maiores tratados já escritos sobre o tema”.
Apesar de ter tido uma infância e adolescência feliz, sem problemas de maior, Andrew Solomon depois de ter feito o seu mestrado na Inglaterra, já de novo nos Estados Unidos, estabelecido e com um início de carreira promissor, após a morte da sua mãe afunda-se numa depressão grave que o irá perseguir até aos dias de hoje.
A partir daí toda a sua vida vai se alterar por completo, entra numa depressão profunda que dura vários anos, que o torna incapaz de fazer até as mais pequenas coisas como por exemplo tomar banho, sair da cama, etc. Solomon descreve com pormenor todas as fases da sua depressão, a espiral que o leva ao fundo quase ao ponto do não retorno, descreve também a sua luta para sair dessa mesma depressão, a ajuda dos amigos, a entrega que o seu pai teve a ele, a sua relação com os psicoterapeutas e psiquiatras, até que consegue com a ajuda dos médicos e da  medicação recuperar.
Assim ele consegue manter-se estável durante uns tempos, mas ao sentir-se bem deixa a medicação e igualmente devido ao fim de um relacionamento volta a cair na depressão e a repetir todo o processo até conseguir novamente recuperar.
Toda esta parte da vida do autor é descrita por ele mesmo, com pormenor e sem qualquer pudor, pondo à luz do dia tudo o que de bem e (principalmente) de mal fez.
Após esta parte mais biográfica, Solomon entra na parte mais técnica onde vai mostrar-nos numa linguagem acessível mas onde se nota bem todo o seu estudo, investigação e conhecimento sobre a depressão.
Sendo assim ele vai abordar vários temas como a evolução da doença e o tratamento da mesma, debruçando-se sobre a medicação (é um grande defensor da utilização de fármacos para estabilizar a doença), a psicanálise, os tratamentos alternativos e a institucionalização de doentes.
Mostra-nos também o impacto da depressão nas pessoas e na sociedade, a exclusão e a incompreensão, a que os "depressivos" estão sujeitos que os pode levar a atitudes mais extremas como o suicídio e à dependência de drogas e álcool (temas sobre o quais este livro capítulos próprios).
Solomon junta a tudo isto uma profusão de entrevistas e histórias de pessoas que tal como ele sofreram e sofrem de depressão, conta-nos a suas experiências, vivências, vitórias e derrotas, histórias de vida, algumas inspiradoras e motivadoras outras de uma grande tristeza e infortúnio.
O livro termina com o capítulo acerca do futuro, as novas descobertas científicas e médicas, as novas terapias e medicação e a esperança que um dia a depressão seja curável.
Este livro é "enorme", tanto em tamanho com em qualidade, todo o texto é acompanhado por notas (o que por vezes torna a leitura um pouco mais difícil) em que o autor nos remete a trabalhos científicos, publicações de especialidade, referencias bibliográficas, enfim um sem número de ligações que provam que este livro é um enorme trabalho de investigação e de amor.
Apesar de ser grande e de ser uma mistura de livro autobiográfico com trabalho científico, adorei-o, fez-me ver a depressão com outros olhos, a compreender certos sintomas que podem não ser nada aos olhos de outros mas que nos deprimidos pode ser a diferença entre a vida e a morte e acima de tudo a não excluir os depressivos e a quem é depressivo ensina a não esconder a doença e acima de tudo pedir ajuda e a lutar pela cura.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

"J" - Howard Jacobson


Este foi um dos livros mais estranhos que li nos últimos tempos, a começar pelo próprio título que me é muito difícil transcrever aqui, sendo o mais aproximado que consegui foi "J".
Neste livro Howard Jacobson autor Inglês com vários livros e prémios literários, transporta-nos para um futuro próximo, numa sociedade aparentemente muito parecida com a nossa mas ao mesmo tempo muito fechada sobre si própria, com um sentimento de culpa muito grande, devido a "aquilo que aconteceu, se é que aconteceu", em que as pessoas são aconselhadas e educadas a esquecer o passado.
Jacobson traz-nos a históra de Kevern um homem na casa dos quarenta anos, um pouco "neurótico" e "desconfiado" e ao mesmo tempo "deslocado", devido à educação e ao passado misterioso dos seus pais, e de Ailinn, rapariga mais jovem, órfã, criada por pais adotivos e igualmente com um passado misterioso que irá ser decisivo para a trama.
Kevern e Ailinn vivem numa pequena cidade perto do mar, uma sociedade fechada, pouco amigável e até mesmo violenta, conhecem-se, (ou são dados a conhecerem-se), apaixonam-se e partir daí a história vai-se desenvolvendo até ao surpreendente final.
Todo a ação é feita de nuances,  de insinuações e referencias a algo que nunca é dito claramente mas que com o evoluir dessa mesma ação vai deixando pistas ao leitor, sobre o que aconteceu, Jacobson utiliza também saltos temporais ao passado, e pequenas histórias que intervalam com a principal, por vezes durante a leitura parece que se perde um pouco o "fio à meada", mas no fim tudo se junta contribuindo para a compreensão da história.
Apesar de estranho e um nadinha confuso por vezes, é de fácil leitura, é também uma crítica à nossa sociedade atual, uma espécie de aviso para nós todos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

"O Meu Mundo não é deste Reino" - João de Melo




Um dos escritores nacionais que muito já tinha ouvido falar mas que nunca tinha lido, era João de Melo.
João de Melo, nasceu nos Açores mas veio ainda criança estudar para o Continente, começou igualmente também muito cedo a escrever, publicou o seu primeiro conto aos 18 anos e partir daí nunca mais deixou de estar ligado à escrita, esteve em Angola durante a guerra colonial (escreveu um livro sobre essa sua experiência de guerra) e é um dos mais activos divulgadores da cultura Açoriana.
"O Meu Mundo não é deste Reino", foi o seu primeiro livro, editado em 1983, já vai na 8ª edição, edição essa que foi toda revista e reescrita pelo autor, e foi essa edição que li.
Assim de repente, posso adiantar que foi o livro mais bonito que li este ano, a par do "Stoner", de John Williams, foi o que eu mais gostei de ler.
O livro como não será de estranhar é passado nos Açores, mais propriamente na ilha de São Miguel, numa freguesia do Nordeste e conta-nos a história dessa freguesia deste a descoberta da ilha e respetivo povoamento até provavelmente aos anos 50 do século XX, apesar da ação principal se situar desde o fim do século XIX até como atrás disse aos anos 50 do século XX.
João de Melo mostra-nos num tom quase místico, melancólico a vida dura dos Açores, o isolamento, a luta contra a natureza, com os vulcões, os terramotos, as tempestades, mostra-nos também a pobreza extrema das populações, as difíceis condições de vida, quase como se fossem náufragos, onde se vivia uma vida inteira sem se sair da freguesia, onde o outro lado da ilha era quase tão longe como o outro lado do mundo, fala-nos também das tradições, da cultura (e falta dela) dos Açores.
A ação propriamente dita, começa com a chegada do padre Governo à freguesia, ainda jovem e idealista e conta-nos a vida de uma série de personagens da freguesia desde esse momento até à morte do padre muitos anos mais tarde.
Temos então o padre, um curandeiro, uma espécie de mendigo/Messias, um regedor tirano, um agricultor pobre com a sua mulher e filhos, ou seja uma profusão de personagens com contornos um tanto ou quanto fantásticos, cujas vidas se entrelaçam numa série de acontecimentos e que tornam o particular no geral.
Neste livro também há uma série de acontecimentos fantásticos como os 99 dias de chuva seguida sem parar, o milagre da primeira missa, a ressurreição de João Lázaro ou o dia em que se viu a outra face do sol, tudo isto são ingredientes que no fim têm como resultado este livro fabuloso, bem ao estilo do realismo mágico sul americano. Para além de tudo isto há também a crítica social, a exploração dos pobres feita pelos grande agricultores, a ausência de organismos estatais que permitiam os excessos e essa exploração dos mais pobres, o analfabetismo das populações, e a crença excessiva na igreja.
Este livro a mim também me diz mais alguma coisa porque vivi nos Açores (ilha do Faial) durante dois anos e já lá estive diversas vezes depois disso e tenho o privilégio de conhecer a mística Açoriana e a insularidade.
Já tenho outro livro dele "Gente Feliz com Lágrimas", o mais conhecido em fila de espera para ler.


domingo, 6 de dezembro de 2015

"Desmobilizados" - Phil Klay


Este é o primeiro livro de Phil Klay, e que livro!!!
"Desmobilizados", tal como o título indica é sobre a guerra, mais propriamente sobre os soldados que lá combateram e o seu regresso à vida "normal".
O autor escrevendo com muito conhecimento de causa, foi soldado nos "Marines" (Fuzileiros) Norte-Americanos, combateu no Iraque em 2007 e 2008, viveu muito de perto a guerra, a vida militar, toda a sua orgânica, sentiu e viu toda a espécie de sentimentos e acontecimentos a que um soldado pode estar sujeito num teatro de operações difícil como foi o Iraque e depois após a sua desmobilização, o regresso a um mundo civil e familiar que nunca mais será visto com os mesmos olhos.
Este livro é composto por doze contos, todos eles diferentes abrangendo um leque variado de situações, tanto no teatro de operações, como por exemplo no conto "OIF", onde de uma forma irónica e através das siglas utilizadas pelos "Marines" se mostra a burocracia da guerra, ou do conto "Oração na Fornalha", onde se mostra através dos olhos do Capelão de uma unidade de "Marines" a violência de alguns soldados e a expiação dessa mesma violência, como na difícil integração e regresso à vida civil e familiar, sendo logo exemplo disso o primeiro conto "Fim de Missão" (publicado pela revista GRANTA americana), que nos mostra através da ligação do soldado com o seu cão de estimação a reaprendizagem da vida doméstica, ou do conto "Histórias de Guerra" que traz-nos um soldado ferido e desfigurado e a sua alegria de viver apesar da sua condição, ou também o conto "O Dinheiro Como Arma", que nos mostra a guerra vista pelo lado de um civil integrado numa ONG e as respectivas "negociatas" e corrupção existente no Iraque para a sua "reconstrução".
Apesar de algumas partes mais violentas, o livro lê-se bastante bem, os contos não são muito extensos mas agarram-nos à sua leitura, são muito bem escritos, como é provado pela série de prémios literários inclusive o "National Book Award"  que Phil Klay recebeu após a sua publicação.
Este livro foi editado pela nova chancela da editora 20/20, "Elsinore", que tem lançado uma série de livros de qualidade e com um aspeto gráfico muito apelativo.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

"O Navegador da Passagem" - Deana Barroqueiro


Um dos livros que li durante esta minha ausência, foi este "O Navegador da Passagem" de Deana Barroqueiro.
Neste livro a autora dá-nos a conhecer um dos maiores "navegadores" Portugueses, Bartolomeu Dias e numa mistura de ficção com realidade conta-nos de uma forma envolvente e agradável dois dos maiores acontecimentos da saga dos "Descobrimentos Portugueses"; a "Dobra" do Cabo da Boa Esperança, que abriu caminho à posterior ida à Índia por Vasco da Gama e o "achamento" do Brasil por Álvares Cabral, dois acontecimentos nos quais Bartolomeu Dias esteve envolvido directamente, principalmente na "Dobra" do Cabo da Boa Esperança.
A estória em si inicia-se com Bartolomeu Dias, que comandava um dos navios que fazia parte da armada de Álvares Cabral, já depois de descoberto o Brasil e no regresso da ida à Índia, justamente na área do Cabo da Boa Esperança vê um cometa e isso traz-lhe um pressentimento desagradável e ao mesmo tempo faz recordar-se das suas anteriores viagens.
A partir daqui a autora através das memórias de Bartolomeu Dias inicia a acção, cruzando as recordações da viagem de descoberta do "Cabo" que tanto marcou Bartolomeu Dias, devido aos infortúnios próprios das viagens de descoberta da época, doenças, conflitos entre a guarnição, conflitos com os nativos, tempestades, acidentes, mas também devido a uma missão que D. João III lhe incumbiu para levar a cabo durante a viagem, que muito o vai transtornar, com a descoberta do Brasil e os dias lá passados com os nativos.
Neste livro para além da parte ficcional, também a parte histórica é excelente e isso advém da experiência e conhecimentos da autora, que para além de ser licenciada em Filologia Românica é igualmente uma especialista nesta época história de Portugal, chegando a trabalhar em comissões de comemoração dos Descobrimentos Portugueses e todo esse conhecimento e experiência vai-se notando ao longo do livro em que todos os acontecimentos históricos relevantes são parte da acção, como por exemplo o reinado de D. João III, a controversa subida ao trono de D. Manuel I, as intrigas na corte, os casamentos e acordos entre Portugal e Castela, toda a situação geo-política da Europa na época, mas também a parte social, o povo e principalmente a vida a bordo tão bem descrita pela autora.
Foi o primeiro livro que li desta autora e gostei bastante, recomendo vivamente principalmente para quem se interessa por esta época áurea de Portugal.

domingo, 11 de outubro de 2015

"Os Melhores Romances Escritos em Língua Portuguesa" - Projecto Adamastor



O "Projecto Adamastor", um site que tem por objetivo disponibilizar obras literárias em português de domínio público em formato digital livre (epub), está a fazer uma espécie de sondagem/pesquisa sobre "os melhores romances escritos em língua portuguesa".
Nesse sentido, fui contatado por um dos responsáveis do projeto, o Ricardo Lourenço, para através do "O que eu leio" divulgar e apelar à participação dessa mesma sondagem/pesquisa.
Sendo assim, quem quiser participar só tem de aceder à pagina do questionário e indicar na vossa opinião quais os dez melhores romances escritos em português e respetivos autores, bastante fácil e rápido.
O questionário está aberto até janeiro do próximo ano, sendo depois nesse mesmo mês divulgados os resultados.
Eu já participei, façam o mesmo.