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segunda-feira, 7 de maio de 2012

Morte a Crédito - Louis - Ferdinand Céline


Há uns tempos li um livro deste escritor francês que muito me impressionou, esse livro é o "Viagem ao Fim da Noite". No post que fiz sobre o mesmo, falo um pouco sobre o autor e sobre toda a polémica que gira à volta do mesmo, por isso não me vou adiantar muito sobre esse assunto neste post.
Igualmente no post anterior ao falar sobre o livro referi que "... é um livro intenso, com uma leitura "pesada", com passagens fortes que mostra a condição humana na sua face mais baixa.", o mesmo se passa com este livro.
Novamente Céline vai buscar uma personagem com o nome "Ferdinand" e através do relato da sua infância, adolescência e entrada na idade adulta traça um retrato cruel e duro da França do início do séc. XX.
Céline tal como no "Viagem ao Fim da Noite" mostra-nos uma França pobre, miserável e cheia de vícios, onde a condição humana é do mais baixo que existe.A estória em si é a de Ferdinand uma criança que desde o seu nascimento se mostrou ser diferente das outras, isolado e sempre com uma tendência enorme para se meter em problemas.
Os seus pais vivem num bairro pobre, o pai empregado de escritório, com uma baixa auto-estima e que acha que todos os seus problemas advêm do filho, a mãe, comerciante de bugigangas, tem uma loja no bairro onde vivem e também corre diversas feiras para vender os seus produtos, é mais condescendente para com o filho.
Ferdinand não tem queda para a escola, só se mete em problemas, tem uma enorme falta de higiene, mas lá se vai "safando", mais tarde quando tem idade para trabalhar, vai trabalhar para um armazém, mas aí também as coisas não lhe correm muito bem e passa por diversas peripécias, mais tarde e com a ajuda do tio, vai para um colégio em Inglaterra para aprender inglês, mas aí também as coisas não lhe correm nada bem.
Regressado a França vai trabalhar com uma personagem "sui generis", um "inventor", balonista e dono de um jornal sobre invenções e ciência (em suma, um charlatão) e com ele mete-se em esquemas e enormes confusões, criando situações quase inacreditáveis de ridículas que elas são.
O livro tal como referi no início do post, apesar de ter uma linguagem "pesada" e por vezes quase "porca", mostra-nos através de Ferdinand uma visão muito irónica da classe baixa Francesa e da França em geral como só Céline conseguiu fazer.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Viagem Ao Fim da Noite - Louis Ferdinand Céline


Bom se há autores controversos e incompreendidos, Céline é de certeza um deles!
Louis-Ferdinand Céline, francês foi sem dúvida um escritor que muito deu de falar, tanto em França como no resto do mundo, sendo primeiramente admirado e considerado por todos como um génio e depois devido às suas opiniões anti-semitas e suposta colaboração com os alemães durante a II Guerra Mundial, caiu em desgraça e foi posto de parte durante muitos anos, sendo a sua obra redescoberta apenas recentemente.
Este post não é para falar de Céline nem das suas ideias ou ideais políticos, porque há muita ambiguidade e controvérsia acerca disso e a mim apenas me interessa o Céline escritor e particularmente este seu livro, considerado por muitos como um dos melhores livros do séc. XX.
Além disso, para quem estiver interessado acerca de Céline este livro também traz uma pequena biografia dele escrita por Aníbal Fernandes, que é ao mesmo tempo o tradutor desta edição do "Viagem Ao Fim Da Noite" e um dos maiores investigadores/impulsionadores da sua obra em Portugal.
Este livro, traz-nos a estória de parte da vida Ferdinand Bardamu e com ela mostra-nos um retrato cruel das pessoas e da sociedade do princípio do séc. XX.
A estória começa então com Bardamu um jovem estudante de medicina que num impulso se voluntaria para o exercito para ir combater na I Guerra Mundial, a partir daí Céline através de Bardamu começa logo a traçar um retrato negro da humanidade, com a guerra, o porquê da guerra, a questão do patriotismo e a vida dos soldados que por tudo e por nada eram castigados e até fuzilados.
Num destes episódios da guerra, Badamu encontra-se pela primeira vez com Robinson, personagem que o vai acompanhar durante a vida e até mesmo condicioná-la como se verá depois no livro. Entretanto Bardamu é ferido e regressa a Paris, onde no hospital conhece uma enfermeira americana com quem tem um relacionamento e que devido a ela também, lhe nasce a vontade de ir para os Estados Unidos.
Mas como ele recupera, tem de voltar novamente para a frente da guerra e como ele não quer regressar, faz-se de doente e é novamente internado.
Depois de ser internado e ser dado como inapto para voltar à guerra, decide ir para as colónias de África, mas tudo lhe corre mal logo desde o embarque no navio que o leva a África, cujos restantes passageiros, militares, comerciantes, funcionários governamentais e respectivas esposas, lhe ganham um ódio sem qualquer razão aparente e ele decide fugir, num porto onde o navio fez escala.
Em África também não tem sorte, a vida é miserável, as condições são extremas, os europeus são pessoas viciadas, más, vingativas e corruptas, vencidas pelas doenças tropicais e sem escrúpulos nenhuns.
Bardamu é colocado num entreposto de uma companhia comercial, na selva isolado, onde vai substituir o antigo responsável por esse entreposto que é Robinson. Mas Bardamu não aguenta o isolamento, a doença, o mal-estar e resolve fugir, doente é levado por uma série de nativos a uma povoação que já é pertença de uma colónia espanhola.
Aí é entregue a um padre que o "vende" a um navio para lá trabalhar, no navio recupera e começa a trabalhar até que, ironia do destino, esse navio o leva aos Estados Unidos.
Ao aperceber-se que está nos Estados Unidos foge, mas depressa descobre que afinal os Estados Unidos não são a "terra prometida". Durante a sua estadia lá, Bardamu reencontra a sua antiga namorada americana de Paris e também Robinson. É também nessa estadia que conhece a única mulher que o ama de verdade e o trata bem, mas Bardamu farta-se dos Estados Unidos e regressa a França onde termina os estudos de medicina e se estabelece como médico nos subúrbios de Paris.
Nesta parte do livro, Céline mostra bem como a vida era em França, a pobreza extrema, as más condições, a falta de higiene, a mesquinhez das pessoas, o alcoolismo, enfim toda uma panóplia de coisas que transformam as pessoas em seres maus, quase animais e prontos a destruirem-se umas às outras.
É nesta fase que se dá o regresso de Robinson e a sua presença mais regular na vida de Bardamu e que vai influenciar todas as suas decisões, atingindo o clímax que irá ser o fim do livro.
Este livro é de facto uma viagem ao fim da noite, mas a noite representa a alma humana, a sua podridão, a sua mesquinhez, o aproveitamento dos mais fracos pelos mais fortes, é um livro intenso, com uma leitura "pesada", com passagens fortes que mostra a condição humana na sua face mais baixa.
Polémicas à parte é um excelente livro e que deve de ser lido, não deve ser esquecido ou posto de parte devido ao seu autor, porque aqui o que está em causa não é a pessoa mas a sua obra, e neste caso a obra é imensa.
Entretanto os meus parabéns à Ulisseia (Babel) e ao Aníbal Fernandes, por nos estarem a trazer ao público português a obra de Céline, pena haver tantos e tão bons autores que continuam esquecidos das editoras portuguesas que preferem editar literatura de "hipermercado" aos grandes autores internacionais e também nacionais, mas isso é outro assunto que não é para aqui chamado.
Nuno