terça-feira, 17 de maio de 2011

O Livro dos Homens Sem Luz - João Tordo


João Tordo, jovem escritor português que fez furor com o seu livro "O Bom Inverno", traz-nos neste seu primeiro livro uma obra muito boa e com a sua escrita "negra" já bastante demarcada.
"O Livro dos Homens Sem Luz", explora a solidão humana, a decadência do Homem e a loucura. Está construido com quatro capítulos, com estórias diferentes e separadas no tempo, que aparentemente nada têm umas a ver com outras.
Sendo assim na primeira estória temos um homem que perde a família e que se vê depois disso a trabalhar como uma espécie de "detective privado", seguindo diversas pessoas e fazendo relatórios para um homem misterioso, depois temos um casal que durante a II Guerra Mundial aquando da destruição da sua casa por uma bomba alemã fica preso na cave do prédio, sem luz e por um prolongado periodo de tempo e cuja reacção e forma de responder a esse acontecimento é totalmente diferente de um para o outro, de seguida é a estória de um jovem ex-estudante que trabalha numa biblioteca e que sofre de insónias devido ao seu misterioso vizinho do lado e por último, regressamos ao casal que ficou soterrado, principalmente ao homem e vêmos o que lhe aconteceu depois de ser resgatado.
Apesar de estas estórias aparentemente serem independentes umas das outras, estão interligadas através das personagens e as suas vidas cruzam-se umas com as outras criando uma teia de acontecimentos que por fim se juntam para o fim da meada.
Como atrás disse, a escrita de João Tordo é uma escrita negra, e nota-se tal como diz na contra-capa do livro, "uns ecos de Kafka e Paul Auster", sendo mesmo a primeira estória muito semelhante à primeira estória da "Trilogia de Nova Iorque" de Auster. O João Tordo cria também situações e ambientes que de tão opressivas e deprimentes, lembram sem dúvida Kafka, juntamente com um pouco de realismo mágico.
Apesar da ligeira semelhança ou lembrança de outros livros e autores que este livro me trouxe (Trilogia de Nova Iorque de Auster, 2666 de Bolano e até mesmo o Marina de Zafón), gostei bastante, aliás gostei mais deste livro do que do "O Bom Inverno".
Sem dúvida que João Tordo juntamente com Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto e Walter Hugo Mãe, é um dos melhores jovens escritores portugueses da actualidade e de certeza que irá dar que falar no futuro.
Nuno

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Viagem Ao Fim da Noite - Louis Ferdinand Céline


Bom se há autores controversos e incompreendidos, Céline é de certeza um deles!
Louis-Ferdinand Céline, francês foi sem dúvida um escritor que muito deu de falar, tanto em França como no resto do mundo, sendo primeiramente admirado e considerado por todos como um génio e depois devido às suas opiniões anti-semitas e suposta colaboração com os alemães durante a II Guerra Mundial, caiu em desgraça e foi posto de parte durante muitos anos, sendo a sua obra redescoberta apenas recentemente.
Este post não é para falar de Céline nem das suas ideias ou ideais políticos, porque há muita ambiguidade e controvérsia acerca disso e a mim apenas me interessa o Céline escritor e particularmente este seu livro, considerado por muitos como um dos melhores livros do séc. XX.
Além disso, para quem estiver interessado acerca de Céline este livro também traz uma pequena biografia dele escrita por Aníbal Fernandes, que é ao mesmo tempo o tradutor desta edição do "Viagem Ao Fim Da Noite" e um dos maiores investigadores/impulsionadores da sua obra em Portugal.
Este livro, traz-nos a estória de parte da vida Ferdinand Bardamu e com ela mostra-nos um retrato cruel das pessoas e da sociedade do princípio do séc. XX.
A estória começa então com Bardamu um jovem estudante de medicina que num impulso se voluntaria para o exercito para ir combater na I Guerra Mundial, a partir daí Céline através de Bardamu começa logo a traçar um retrato negro da humanidade, com a guerra, o porquê da guerra, a questão do patriotismo e a vida dos soldados que por tudo e por nada eram castigados e até fuzilados.
Num destes episódios da guerra, Badamu encontra-se pela primeira vez com Robinson, personagem que o vai acompanhar durante a vida e até mesmo condicioná-la como se verá depois no livro. Entretanto Bardamu é ferido e regressa a Paris, onde no hospital conhece uma enfermeira americana com quem tem um relacionamento e que devido a ela também, lhe nasce a vontade de ir para os Estados Unidos.
Mas como ele recupera, tem de voltar novamente para a frente da guerra e como ele não quer regressar, faz-se de doente e é novamente internado.
Depois de ser internado e ser dado como inapto para voltar à guerra, decide ir para as colónias de África, mas tudo lhe corre mal logo desde o embarque no navio que o leva a África, cujos restantes passageiros, militares, comerciantes, funcionários governamentais e respectivas esposas, lhe ganham um ódio sem qualquer razão aparente e ele decide fugir, num porto onde o navio fez escala.
Em África também não tem sorte, a vida é miserável, as condições são extremas, os europeus são pessoas viciadas, más, vingativas e corruptas, vencidas pelas doenças tropicais e sem escrúpulos nenhuns.
Bardamu é colocado num entreposto de uma companhia comercial, na selva isolado, onde vai substituir o antigo responsável por esse entreposto que é Robinson. Mas Bardamu não aguenta o isolamento, a doença, o mal-estar e resolve fugir, doente é levado por uma série de nativos a uma povoação que já é pertença de uma colónia espanhola.
Aí é entregue a um padre que o "vende" a um navio para lá trabalhar, no navio recupera e começa a trabalhar até que, ironia do destino, esse navio o leva aos Estados Unidos.
Ao aperceber-se que está nos Estados Unidos foge, mas depressa descobre que afinal os Estados Unidos não são a "terra prometida". Durante a sua estadia lá, Bardamu reencontra a sua antiga namorada americana de Paris e também Robinson. É também nessa estadia que conhece a única mulher que o ama de verdade e o trata bem, mas Bardamu farta-se dos Estados Unidos e regressa a França onde termina os estudos de medicina e se estabelece como médico nos subúrbios de Paris.
Nesta parte do livro, Céline mostra bem como a vida era em França, a pobreza extrema, as más condições, a falta de higiene, a mesquinhez das pessoas, o alcoolismo, enfim toda uma panóplia de coisas que transformam as pessoas em seres maus, quase animais e prontos a destruirem-se umas às outras.
É nesta fase que se dá o regresso de Robinson e a sua presença mais regular na vida de Bardamu e que vai influenciar todas as suas decisões, atingindo o clímax que irá ser o fim do livro.
Este livro é de facto uma viagem ao fim da noite, mas a noite representa a alma humana, a sua podridão, a sua mesquinhez, o aproveitamento dos mais fracos pelos mais fortes, é um livro intenso, com uma leitura "pesada", com passagens fortes que mostra a condição humana na sua face mais baixa.
Polémicas à parte é um excelente livro e que deve de ser lido, não deve ser esquecido ou posto de parte devido ao seu autor, porque aqui o que está em causa não é a pessoa mas a sua obra, e neste caso a obra é imensa.
Entretanto os meus parabéns à Ulisseia (Babel) e ao Aníbal Fernandes, por nos estarem a trazer ao público português a obra de Céline, pena haver tantos e tão bons autores que continuam esquecidos das editoras portuguesas que preferem editar literatura de "hipermercado" aos grandes autores internacionais e também nacionais, mas isso é outro assunto que não é para aqui chamado.
Nuno

sábado, 30 de abril de 2011

A minha whishlist

Por esta altura do ano, já sairam inúmeras edições de livros, sejam de livros novos escritos por autores novos, livros novos de autores velhos, ou reedições de livros velhos, etc., etc..
Eu após exaustiva pesquisa tanto aqui pela net, (principalmente nos sites das editoras e nos blogues literários), como em papel na imprensa especializada e (acima de tudo) nas minhas visitas às livrarias, escolhi de entre os vários livros que gostava de ler e ter, três que espero que façam parte da minha biblioteca brevemente.
Os livros em questão sao:


"O Cemitério de Praga", o último de Umberto Eco, um grande escritor e pensador da actualidade cujas obras, nomeadamente os romances históricos são sempre de um rigor e de uma escrita fabulosa.



"Liberdade", o romance, de Jonathan Franzen, que o catapultou para os escaparates literários, sendo já considerado pela "Time" como  "great american novelist", recomendado pela Oprah no "Oprah''s Book Club", ou o "fenómeno literário da década" como lhe chamou o "The New York Times", e foi também este o livro que Obama levou para ler nas suas férias.
Franzen inclusivé já tinha  vencido o "National Book Award" em 2002 com o seu livro anterior, "Correcções"
Acho que estes são motivos mais do que suficientes para aguçar-me a curiosidade.


Finalmente o terceiro livro desta "whishlist" é a nova reedição de "Os Budden Brook" de Thomas Mann, autor que dispensa apresentações e que nunca me deixa de surpreender e de gostar mais a cada livro que leio dele.
E pronto aqui estão os livros que me deixaram "com a pulga atrás da orelha" e que espero conseguir adquirir e ler o mais depressa possível.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Tratado das Paixões das Almas - António Lobo Antunes

Imaginemos que Portugal numa época não especificada, mas que aparenta ser nos princípios dos anos 90 do século passado, é assolado por um grupo terrorista de esquerda, de inspiração maoísta, que faz atentados, assaltos, etc., tal como um I.R.A. ou uma E.T.A.
Imaginemos que é criada uma brigada especial da polícia chefiada por um juiz de instrução e que é apanhado um terrorista que por acaso é um amigo de infância desse mesmo juiz que chefia as investigações.
António Lobo Antunes, com este mote traz-nos mais outro livro fabuloso, cheio de ironia e que com o seu estilo inconfundível de escrita explora o lado mesquinho das pessoas.
Apesar de estar dividido em seis partes, este livro pode-se dividir em duas grandes partes principais, a primeira parte aborda e explora a relação entre o juiz, que como atrás disse é escolhido pelo próprio governo para chefiar as investigações e o interrogatório do "homem" (seu amigo de infância) um elemento de uma célula do grupo terrorista que assola Portugal e que foi capturado pela polícia, sendo que a segunda parte se foca nas pequenas estórias dos intervenientes da acção, tais como os restantes elementos do grupo terrorista e outras personagens periféricas e também nas acções levadas a cabo pela polícia para a captura do grupo terrorista. 
A estória da amizade entre o juiz e o homem, é complicada, são amigos de infância, mas o juiz é filho de pais pobres e humildes sendo o pai um alcoólico e que vêm da província para Lisboa para trabalharem como caseiros na quinta de Benfica que pertence aos avós do Homem.
O Homem, cuja mãe morreu num acidente de automóvel e o pai que ficou com graves deficiencias mentais devido ao mesmo acidente, vive com os avós e é um autentico "menino de bem".
Ambos quando crianças partilham de brincadeiras, partidas, aventuras, sendo que muitas vezes (ou quase sempre) o juiz é "usado" pelo homem e fica sempre com as culpas quando as coisas correm mal e são apanhados a fazerem "asneiras". Entretanto vão crescendo, o juiz torna-se num aluno aplicado, vai para a universidade e consegue ser juiz e o homem, sempre preguiçoso, sem ambição não segue os estudos e vai trabalhar para a companhia de seguros do avô mas num nível inferior e com a idade vão-se separando e perdendo a amizade um pelo outro.
Até que o homem que foi aliciado por um colega de trabalho que pertence aos terroristas e o recruta, cai numa armadilha e é capturado pela polícia. O juiz escolhido por causa da sua ligação com ele em criança inicia os interrogatórios, e é aí que vê (lê) a mestria da escrita de Lobo Antunes, que intercala passado com presente de uma forma natural e fluida sem nunca baralhar o leitor.
A seguir aos interrogatórios, o Homem é solto mas a trabalhar para a polícia de forma a ajudar na captura dos restantes elementos do grupo terrorista e a partir daqui Lobo Antunes pega nas pequenas estórias dessas diversas personagens e com muita ironia e até com alguma comédia traça um retrato de Portugal da época, os seus vícios, as suas "vigarices" e "esquemas", os abusos de poder, a política, a falsidade e a traição.
Fala também da decadência, do Portugal do antes 25 de Abril 1974, o Portugal das grandes famílias, quase ainda feudal que se transforma com uma rapidez impressionante  num Portugal de acelarado urbanismo descontrolado e valores e ideais totalmente diferentes dos anteriores.
Dos diversos livros de Lobo Antunes que já li, este foi sem dúvida o mais simples de ler e o mais divertido e irónico, gostei bastante e até o aconselho a quem nunca leu Lobo Antunes e se queira iniciar na sua leitura.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A Autêntica - Saul Bellow


Saul Bellow, escritor Norte-Americano e vencedor de um Nobel, geralmente escreve sobre homens de meia-idade, solitários, amargos com a vida, num ambiente urbano e intelectual e judeus como ele. Por isso este seu livro "A Autêntica" não podia fugir muito a esta temática.
"A Autêntica" traz-nos a estória de Harry Trellman, um homem de meia-idade, solteiro e muito reservado que por ter uma certa aparência oriental e outras razões, sai dos Estados Unidos e vive vários anos no oriente, sendo uma espécie de comerciante de antiguidades orientais e contrabandista.
Harry Trellman depois de viver tantos anos no oriente decide regressar aos Estados Unidos, nomeadamente à sua Chicago natal, cidade essa à qual ele tem uma ligação muito especial.
Em Chicago Trellman funda a sua empresa de antiguidades e começa a dar-se com pessoas ricas e influentes e é num jantar social que conhece Adletsky, um multi-milionário e ambos tornam-se muito amigos e confidentes.
Em Chicago também vai reencontrar Amy Wustrin, sua namorada quando jovens, mas que depois se casou com o seu amigo Jay.
Trellman nunca deixou de amar Amy durante toda a sua vida, mesmo quando era casada com Jay que entretanto já tinha falecido e com uma pequena ajuda de Adletsky, vai refazer a sua vida.
Este livro de Bellow é carregado de emoções, de arrependimentos e amor, mais uma vez ele consegue mostrar o lado emocional masculino.
Apesar de achar o livro pequeno (só tem 137 páginas) e muito mais podia ser explorado, adorei-o, tal como os livros que já li dele, "Ravelstein" e "Morrem Mais de Mágoa" que foi recentemente reeditado pela Quetzal.
Para quem nunca leu Bellow recomendo qualquer um deles.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Wolf Hall - Hilary Mantel

Wolf Hall, da escritora inglesa Hilary Mantel, é provavelmente um dos melhores romances históricos dos últimos anos.
Para além de romance histórico, este livro é também uma excelente obra literária e foram todos estes argumentos que lhe valeram para receber o prestigiado "Man Booker Prize" em 2009.
Hilary Mantel com este seu livro traz-nos a história de Thomas Cromwell, uma das maiores figuras da Inglaterra do séc. XVI e mostra-nos através dele um periodo muito conturbado da história da Inglaterra.
O livro começa com um pouco da infância de Cromwell, oriundo do povo, filho de um ferreiro que constantemente o maltrata e que em adolescente foge de casa e vai correr a Europa.
A acção retoma anos mais tarde já com Cromwell de volta à Inglaterra, um advogado e comerciante respeitado e também secretário do Cardeal Wolsey, a figura principal de Inglaterra depois do rei.
Nesta altura reina Henry VIII, casado com Catarina de Aragão que já tinha sido esposa do seu falecido irmão o rei Arthur.
Henry, entretanto desiludido com a sua esposa e com apenas uma filha (a futura rainha Mary), visto que todas as outras crianças que teve morreram, apaixona-se por uma jovem cortesã, Anne Boleyn. A partir daqui inicia-se toda uma série de intrigas, jogos políticos, ambições, traições que levam à queda do Cardeal Wolsey e à ascenção de Cromwell.
Cromwell era um homem de visão, organizado e metódico, um excelente estadista que aos poucos e poucos foi alterando toda a política da Inglaterra que nessa época era um país muito atrasado e feudal, enquanto os outros países da Europa gozavam já um enorme avanço tanto político-económico, como o caso de Portugal e Espanha (estamos no periodo aúreo do Império Português com D. João III no trono), como científico e artístico como nos Reinos de Itália, com o Renascimento. É igualmente uma época de grande conflito espiritual com a ascenção do Calvinismo e do Luteranismo no norte da Europa e as lutas e revoltas religiosas.
Cromwell aproveitando o facto de o Papa Clemente não reconhecer o divórcio de Henry VIII com Catarina de Aragão, criou o "Acto de Supremacia" em que dava poder sobre a igreja ao rei de Inglaterra e não ao Papa, criando assim a igreja Anglicana.
Com esta lei Henry VIII, pode divorciar-se e casar novamente com Anne Boleyn, mas esta também só lhe dará uma filha, a futura rainha Elizabeth I.
Evidentemente que esta lei não agradou ao clero e ao povo inglês que eram obrigados a aceitar a lei ou a sofrerem diversas consequencias, uma delas terá sido a morte de outra grande figura da Inglaterra desta época, Thomas More (mais tarde tornado santo e mártir pelo Vaticano), que se recusou a aceitar e foi condenado à decapitação.
O livro termina com a morte de More, mas muito mais sucedeu após isso, não sei se a Hilary Mantel irá fazer outro livro com o resto da vida de Cromwell ou não, mas este já é bom o suficiente.
O livro denota um grande trabalho de investigação e rigor histórico, os factos estão bem ficcionados e a estória corre muito fluida e bastante fácil de se ler.
Gostei muito do livro, o prémio que recebeu é sem dúvida mais que merecido e vale bem a pena ler.

sábado, 9 de abril de 2011

Karl Marx Biografia - Francis Wheen


Practicamente desde o início do ano que não posto nada aqui no blog, isso deveu-se a várias razões, desde à minha vida profissional que sofreu uma mudança, a outras de âmbito pessoal, mas a maior razão de todas elas foi pura e simplesmente a preguiça e a falta de vontade para fazer as "reviews" dos livros que li durante este periodo de ausência (que já vão em 28, quase 29).
Mas hoje decidi acabar com esse periodo de preguiça mental e voltar a fazer as "reviews" e a dar as minhas opiniões sobre os livros que leio.
O livro que trago para este regresso, é uma biografia sobre Karl Marx, do jornalista Britânico Francis Wheen.
Karl Marx é sempre um nome que nos traz à memória coisas más, regimes opressivos, a ex U.R.S.S., a repressão que foi feita em nome das suas teorias, os gulags, perseguições políticas, "Guerra Fria", etc..
Tudo isto de facto aconteceu debaixo do "Marxismo", mas será que este "Marxismo" foi de facto o que Karl Marx criou, descreveu e lutou durante toda a sua vida?
Francis Wheen, jornalista Britânico, que trabalhou em vários jornais e revistas de referencia ingleses e também na BBC, vem com esta biografia mostrar-nos o lado mais humano e real de Karl Marx e desmistificar muito do que se diz ou se pensa sobre Karl Marx.
Karl Marx nascido na Alemanha numa família de pequena burguesia e de ascendencia judia, desde muito cedo se revelou uma pessoa com uma inteligencia muito acima da média, mas também com um temperamento muito peculiar. Na sua juventude e apesar de ir contra a vontade dos pais começa a estudar filosofia, particularmente a de Hegel que muito contribuiu para a construção dos seus ideais e filosofia, estudando nas Universidades de Bona, Colónia e Berlim. Nestas cidades Marx dedicava-se igualmente à boémia, percorrendo os cafés e tabernas e as tertúlias onde começou a interessar-se pela política.
A partir daqui toda a sua vida começa a ser dominada pela política e pela "luta de classes", escreve em vários jornais, é perseguido e obrigado a fugir para vários países da Europa até que se estabelece de vez na Inglaterra onde viverá a maior parte da sua vida e onde serão escritas as suas obras mais importantes incluindo a sua obra-prima "O Capital".
Mas como atrás disse esta biografia mostra-nos também o lado humano de Marx, a sua vida íntima, o seu amor incondicional à sua esposa "Jenny", aos seus filhos que morreram quase todos antes dele, a sua vida de miséria e provações, as suas lutas com os seus inimigos e a sua amizade de uma vida com Engels.
Nesta biografia outra coisa que se vê é que Marx apesar de sempre lutar contra as desigualdades, nunca deixou de cultivar uma vida de pequeno burguês, chegando a passar dificuldades e a contrair enormes dívidas para sustentar essa imagem para ele e para a sua família, o que contradiz de todo a imagem de "revolucionário" que se criou à volta de Karl Marx.
Gostei muito de ler esta biografia, é bastante fácil de se ler, não entra em "dissertações filosóficas ou políticas", apenas mostra Marx como uma pessoa igual a todas as outras com as suas lutas, alegrias e angústias.

sábado, 15 de janeiro de 2011

As primeiras aquisições de 2011


E pronto... Hoje resolvi fazer um pouco de turismo por Lisboa e claro que não vim de mãos a abanar ...
Sendo assim na Trama comprei - "O Eleito" de Thomas Mann, depois desci ao Chiado e na Assírio e Alvim comprei - "O Género Intranquilo - Anatomia do Ensaio e do Fragmento" de João Barrento e "Almas Mortas - Aventuras de Tchítchikov" de Nikolai Gógol, de seguida fugi logo para o comboio antes que fosse à Fnac ou à Bertrand e "torrasse" o resto do ordenado em livros.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Uma Viagem à Índia - Gonçalo M. Tavares


Este foi para mim sem dúvida o melhor livro que li em 2010.
Gonçalo M. Tavares com este livro único e original, vem mostrar que a boa Literatura Portuguesa ainda existe.
"Uma Viagem à Índia" é um livro difícil de descrever, porque apesar de a história que este livro conta ser relativamente simples, a estrutura do livro e toda a sua subjectividade e conotações são muito complexas e cheias de paralelismos.
O livro conta-nos a história de Bloom que após uma série de acontecimentos trágicos que serão contados durante o decorrer da acção, decide partir de Portugal, mais precisamente de Lisboa e seguir numa viagem de "auto-conhecimento" e ao mesmo tempo de esquecimento do seu passado.
Bloom decide então ir à Índia, terra mística, de grandes sábios, onde pensa ele, irá adquirir conhecimentos e refazer a sua vida libertando-se do seu passado. Como essa viagem será de introspecção, não vai directamente para a Índia, vai primeiramente conhecer vários países e cidades tais como: Londres, Paris, Praga, onde irá passar por uma série de peripécias boas e más e conhecer também outras personagens que serão importantes para o desenrolar da acção.
Apesar de o tema da história ser já de si interessante e com muito "pano para mangas", o que torna realmente único neste livro não é isso.
Como disse no início, este livro está cheio de paralelismos, e o mais evidente e directo, é com "Os Lusíadas" de Luis Vaz de Camões.
Tal como "Os Lusíadas" este livro também trata de uma "viagem de descoberta à Índia", uma epopeia, neste caso não de um povo, mas sim de uma só pessoa e tal como os Portugueses e Vasco da Gama, também Bloom sofre várias peripécias e adversidades para lá chegar.
Apesar disto tudo, a ligação mais directa com a obra de Camões é mesmo o aspecto gráfico do livro.
"Uma Viagem à Índia", tal como "Os Lusíadas", encontra-se dividida em dez cantos, e apesar de não ser poesia está escrito como tal, tendo cada canto cerca de cem estrofes, (uns menos, outros mais), traz também no fim do livro uma espécie de esquema com o nome de "Melancolia contemporânea (Um Itinerário) em que cada canto é resumido através de palavras chaves.
Além de "Os Lusíadas", outro paralelismo que existe nesta obra é com o "Ulisses" de James Joyce, onde ele vai buscar o nome do personagem principal "Bloom" e a ideia de um Épico moderno e urbano, baseado numa só personagem.
Este livro é uma obra muito complexa, apesar de à primeira vista não parecer, mas depois de se começar a ler e se indo cada vez mais "afundando" na sua "profundidade interior" e ler as "entrelinhas", tudo aquilo que o Gonçalo M. Tavares nos diz não no texto mas sim no que está subjacente a ele, depressa se percebe que estamos perante uma obra intensa e fabulosa.
O livro traz também um prefácio de um dos maiores pensadores e ensaístas portugueses contemporâneos, Eduardo Lourenço, que nos introduz de uma excelente forma a este livro.
Já o disse várias vezes e não sou só eu, muita gente ligada ao livro, às letras, à arte e cultura e ao mundo editorial, que o Gonçalo M. Tavares ainda vai dar muito que falar na literatura portuguesa e internacional. 

Prendas de Natal


Apesar de o Natal já ter sido à uma semana e de já estarmos em 2011, aqui ficam à mesma os livros que me foram oferecidos neste último Natal, sendo assim temos:

"Histórias Daqui e Dali" - Luís Sepúlveda, (que entretanto já foi lido).
"100 Filósofos" - Jean-Clet Martin
"Wolf Hall" - Hilary Mantel