sábado, 1 de janeiro de 2011

Uma Viagem à Índia - Gonçalo M. Tavares


Este foi para mim sem dúvida o melhor livro que li em 2010.
Gonçalo M. Tavares com este livro único e original, vem mostrar que a boa Literatura Portuguesa ainda existe.
"Uma Viagem à Índia" é um livro difícil de descrever, porque apesar de a história que este livro conta ser relativamente simples, a estrutura do livro e toda a sua subjectividade e conotações são muito complexas e cheias de paralelismos.
O livro conta-nos a história de Bloom que após uma série de acontecimentos trágicos que serão contados durante o decorrer da acção, decide partir de Portugal, mais precisamente de Lisboa e seguir numa viagem de "auto-conhecimento" e ao mesmo tempo de esquecimento do seu passado.
Bloom decide então ir à Índia, terra mística, de grandes sábios, onde pensa ele, irá adquirir conhecimentos e refazer a sua vida libertando-se do seu passado. Como essa viagem será de introspecção, não vai directamente para a Índia, vai primeiramente conhecer vários países e cidades tais como: Londres, Paris, Praga, onde irá passar por uma série de peripécias boas e más e conhecer também outras personagens que serão importantes para o desenrolar da acção.
Apesar de o tema da história ser já de si interessante e com muito "pano para mangas", o que torna realmente único neste livro não é isso.
Como disse no início, este livro está cheio de paralelismos, e o mais evidente e directo, é com "Os Lusíadas" de Luis Vaz de Camões.
Tal como "Os Lusíadas" este livro também trata de uma "viagem de descoberta à Índia", uma epopeia, neste caso não de um povo, mas sim de uma só pessoa e tal como os Portugueses e Vasco da Gama, também Bloom sofre várias peripécias e adversidades para lá chegar.
Apesar disto tudo, a ligação mais directa com a obra de Camões é mesmo o aspecto gráfico do livro.
"Uma Viagem à Índia", tal como "Os Lusíadas", encontra-se dividida em dez cantos, e apesar de não ser poesia está escrito como tal, tendo cada canto cerca de cem estrofes, (uns menos, outros mais), traz também no fim do livro uma espécie de esquema com o nome de "Melancolia contemporânea (Um Itinerário) em que cada canto é resumido através de palavras chaves.
Além de "Os Lusíadas", outro paralelismo que existe nesta obra é com o "Ulisses" de James Joyce, onde ele vai buscar o nome do personagem principal "Bloom" e a ideia de um Épico moderno e urbano, baseado numa só personagem.
Este livro é uma obra muito complexa, apesar de à primeira vista não parecer, mas depois de se começar a ler e se indo cada vez mais "afundando" na sua "profundidade interior" e ler as "entrelinhas", tudo aquilo que o Gonçalo M. Tavares nos diz não no texto mas sim no que está subjacente a ele, depressa se percebe que estamos perante uma obra intensa e fabulosa.
O livro traz também um prefácio de um dos maiores pensadores e ensaístas portugueses contemporâneos, Eduardo Lourenço, que nos introduz de uma excelente forma a este livro.
Já o disse várias vezes e não sou só eu, muita gente ligada ao livro, às letras, à arte e cultura e ao mundo editorial, que o Gonçalo M. Tavares ainda vai dar muito que falar na literatura portuguesa e internacional. 

Prendas de Natal


Apesar de o Natal já ter sido à uma semana e de já estarmos em 2011, aqui ficam à mesma os livros que me foram oferecidos neste último Natal, sendo assim temos:

"Histórias Daqui e Dali" - Luís Sepúlveda, (que entretanto já foi lido).
"100 Filósofos" - Jean-Clet Martin
"Wolf Hall" - Hilary Mantel 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ABC Da Crítica

"O Lugar do crítico é o lugar do leitor: e, aí, tentar encontrar as questões que o texto coloca a quem o lê, procurando dar-lhes uma resposta, já que a simples leitura não tem esse fim. Se, ao ler a crítica, o leitor tiver encontrado ao menos uma resposta às interrogações que cada obra coloca, o obejectivo da crítica pode dar-se por satisfeito." 
Nuno Júdice, professor universitário de literatura e reconhecido autor de uma vasta obra literária trás-nos neste seu pequeno livro/ensaio o que é, e qual a função da crítica literária.
Este livro não se trata de um "guia" sobre o que se deve ou não fazer na crítica, pelo contrário é um texto sério, talvez mesmo um pouco académico.
No "ABC Da Crítica", Nuno Júdice começa primeiro por explicar qual "o lugar do crítico", o que ele deve de fazer e qual a sua relação e sobretudo imparcialidade com o texto que vai criticar.
Fala-nos também "para que serve a crítica", o que se pode considerar como "cânone literário", é nesta parte onde ele nos explica o que deve ser considerado "Literatura" e "literatura de entretenimento" e onde também dá umas "alfinetadas" ao ensino da literatura em Portugal.
Depois desenvolve a estrutura da crítica e finaliza com o "gosto" e qual a sua influência na crítica e no crítico.
Este livro apesar de pequeno é um pouco complexo e debruçasse não na crítica comercial, (a chamada crítica das estrelinhas) mas sim na crítica séria e até mesmo académica.
Gostei de o ler, elucidou-me sobre alguns aspectos, visto que quer eu queira, quer não, o que faço neste blog não deixa de ser um pouco de crítica literária e deixa-me também mais algumas refencias para fazer melhores "críticas" nos blog.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

"A Pilha"



Aqui está a minha "pilha" de livros a ler, evidentemente que esta "pilha" vai sofrer muitas transformações, com a saída dos livros que são lidos e a entrada de outros novos para ler.
Sendo assim aqui vai a descrição do que consta "A Pilha":

Os 2 livros do topo - "Ulysses", James Joyce e  "Uma Viagem à Índia", Gonçalo M. Tavares, são os que estou a ler actualmente, os seguintes a ler serão:

- "A Raça Maldita" - Marcel Proust (Contos)

- "The Complete Richard Hannay Stories", John Buchan (Colectânea de Livros)

- "Noites na Granja ao pé de Didanka", Nikolai Gogol (Contos)

- "Corsários do Levante", Arturo Pérez-Reverte (Vol. 6 de "As Aventuras do Capitão Alatriste")

- "O Cavalheiro do Gibão Amarelo", Arturo Pérez-Reverte (Vol. 5 de "As Aventuras do Capitão Alatriste")

- "Ao Cair da Noite", Michael Cunningham

- "As Cidades Invisíveis", Italo Calvino

- "Sôbolos Rios Que Vão", António Lobo Antunes

- "Doutor Fausto",Thomas Mann

- "19192, John Dos Passos (Vol. 2 da Trilogia U.S.A.)

- "Paralelo 42", John Dos Passos (Vol. 1 da Trilogia U.S.A.)

- "Aprendiz de Assassino", Robin Hobb (A Saga do Assassino)

- "Karl Marx", Francis Whenn (Biografia)

A ordem de leitura destes livros evidentemente que não vai obedecer a esta ordem aqui exposta mas sim à minha vontade e "apetite" de leitura no momento da escolha.
Nesta lista também não estão incluídos os meus dois projectos de leitura para o ano que vem que são:

- "Em Busca do Tempo Perdido", Marcel Proust (Os 7 volumes editados pela Relógio D'Água e com tradução de Pedro Támen)

- "Guerra e Paz", Lev Tolstoi (Edição do Público ilustrada por Júlio Pomar com prefácio de António Lobo Antunes), cuja leitura já iniciei.

Novas Aquisições


Acabado de chegar via Wook - "1919"- Volume 2 da trilogia U.S.A. de John Dos Passos.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Acabadinhos de receber...


Acabadinhos de receber numa troca de prendas num jantar de amigos

O "Ulisses" de Joyce versão original, o que é óptimo visto que já li a versão traduzida em português agora vou confronta-la com o original e as "Aventuras de Richard Hannay" do escritor britânico John Buchan, talvez o "pai" das histórias de agentes secretos.
Uma curiosidade, a primeira história desta colectânea ("The Complete Richard Hannay Stories"), chama-se "The Thirty-Nine Steps" que seria mais tarde adaptado ao cinema por um senhor chamado Alfred Hitchcock.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

"Compreender a Globalização - O Lexus e a Oliveira" - Thomas L. Friedman


"Compreender a Globalização - O Lexus e a Oliveira" é um daqueles livros que todos nós devíamos ler.
Thomas L. Friedman grande jornalista do New York Times, foi durante muitos anos correspondente em vários países e isso permitiu-lhe observar "em primeira mão" todos os acontecimentos e conhecer os mais importantes intervenientes no advento da globalização e a respectiva transformação socio-económica que daí adveio.
Com uma linguagem bastante simples, sem termos técnicos, mas sem descurar nos pormenores Thomas L. Friedman mostra-nos ao longo de cerca de 500 páginas e num periodo de cerca de dez anos, que vão desde a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria até ao ano 2000, uma série de acontecimentos, políticas e transformações que se deram no mundo e o tornaram no que é hoje.
Neste livro abordam-se temas como o da economia, fala dos grandes bancos, das grandes financeiras, da forma como o dinheiro e o mercado se tornaram tão liberais e a especulação tão terrível que conseguiu derrubar governos e sistemas políticos com as crises económicas como por exemplo o da Indonésia.
Fala também do advento da informática, que permitiu que a comunicação se tornasse mais rápida, e principalmente o grande desenvolvimento da internet, pedra fulcral no sistema da globalização, visto que trouxe a mobilidade, velocidade e facilidade necessária a todas as formas de comércio para vencer nesta época de grande competividade.
Com a globalização veio também o mercado global, as grandes empresas que abrem e fecham sucursais em vários países conforme as condições de mercado e de produtividade e que absorvem as pequenas empresas que não lhes conseguem fazer frente e a influencia que essas mesmas grandes empresas têm nas políticas internas desses mesmos países.
Aborda também problemas como a ecologia e a forma como a globalização e principalmente a americanização se tem vindo a introduzir na sociedade e cultura ocidental, destruindo lentamente costumes e formas de cultura de outros países.
Apesar de já ter sido escrito há dez anos, ainda antes do 11 de Setembro de 2001 que veio mudar também muita coisa, este livro continua actual, principalmente porque atravessamos uma crise muito grave e este livro mostra-nos algumas das razões que contribuiram para isso e também qual o papel de vários intervenientes, como por exemplo os grandes bancos e fundos de investimento que especularam com dinheiro que não existia, as infames agencias de rating e as más políticas económicas de vários países.
Um livro de facto muito interessante e instrutivo, aconselho. 

sábado, 11 de dezembro de 2010

Últimas aquisições!!!


Últimas aquisições!!!
"Doutor Fausto" - Thomas Mann
"Corsários do Levante" - Arturo Pérez-Reverte (livro seis das Aventuras do Capitão Alatriste)
"O Senhor Elliot" - Gonçalo M. Tavares (O mais recente residente deste fabuloso "Bairro")

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Últimas aquisições

Hoje foi um dia muito profícuo na aquisição de novos livros.
Comecei logo o dia, a receber como oferta do meu irmão mais novo, o último livro de António Lobo Antunes - "Sôbolos Rios Que Vão", livro esse que ainda estava em falta para ter todos os livros dele na minha biblioteca.


Depois de almoço e aproveitando ter o dia de hoje de folga e apesar do frio, decidi ir a Lisboa dar um passeio, aproveitando para ir à Trama conhecer a nova loja.
Sendo assim lá rumei eu ao Rato até à livraria Trama.
Chegando à Trama, não consegui entrar, porque a Catarina tinha a entrada "atravancada" de caixas de cartão velhas e estava à espera que as viessem buscar, nisto chegou um senhor numa carrinha e ajudei a Catarina e outro rapaz que penso que seja o Ricardo a pôr as caixas na carrinha.
Por fim entrei e fiquei triste, a "nova"Trama não tem nada a ver com a "antiga", o espaço é muito mais pequeno, os livros estão bem arrumados mas em estantes altíssimas o que dificulta a visão dos títulos, não há aquele espaço onde se podia sentar e apreciar os livros, o barzinho onde inclusivé foi feita uma edição da tertúlia do BBdE também não existe, mas é compreensível, porque a venda de livros em Portugal nomeadamente nestas livrarias independentes não é rentável e por isso torna-se muito difícil sustentar um espaço com condições no meio de Lisboa.
Mesmo assim valeu a pena lá ir, eles são muito simpáticos e há sempre livros de qualidade que não se vêem nas grandes superfícies.
Como devem de calcular não vim de mãos a abanar.
Comprei o livro de poemas "Rusga" de Vasco Gato com edição da própria livraria Trama, o conjunto de contos de Marcel Proust com o nome de "Raça Maldita" e já que estava numa "onda" de contos, comprei também "Noites Na Granja Ao Pé De Dikanka" do escritor Russo Nikolai Gogol.


 Não satisfeito ainda, apanhei o metro até ao Chiado e fui à Bertrand (o oposto da Trama em tudo), onde comprei "Uma Viagem à India" do Gonçalo M. Tavares e o último do escritor Norte-Americano Michael Cunningham - "Ao Cair Da Noite".

 O que vale é que dias como este não acontecem sempre, senão as finanças iam por aí abaixo...

Cesariny


Faz hoje quatro anos que Mário Cesariny partiu.
No dia 26 de Novembro de 2006, Mário Cesariny de Vasconcelos falecia de cancro da próstato aos 83 anos de idade.
Cesariny, um dos maiores poetas e também artista plástico português, foi o grande impulsionador do movimento surrealista em Portugal.
Viveu uma vida conturbada, primeiro na sua juventude porque o pai não queria que ele seguisse o caminho das artes e depois até ao 25 de Abril de 1974 pelo fascismo na figura da PIDE devido aos seus escritos e à sua assumida homossexualidade.
Foi sempre uma pessoa reservada, apenas se dando mais a conhecer ao fim da sua vida, tendo participado inclusivé num documentário em 2004 em que ele "conta" toda a sua vida.
Perdeu-se um grande artista e um grande Homem, mas felizmente a sua arte tanto escrita como pictórica perdura, sendo até no caso da literatura reeditada várias vezes para  a podermos apreciar e lê-la.
Deixo um pequeno poema dele:

"Em todas as ruas te encontro"


"Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco"

Mário Cesariny