quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A Minha Mulher - Anton Tchekov


A Minha Mulher, é um conto do escritor Russo Anton Tchekov, muito conhecido pelas suas histórias curtas (como é o caso desta), mas principalmente pelas várias peças de teatro maravilhosas que escreveu como a Gaivota ou o Tio Vânia.
Neste pequeno livro livro, tendo como base uma grave fome que alastra numa aldeia de camponeses na Rússia, Tchekov aborda um casamento fracassado, as suas causas e efeitos.
Pavel Anndreievitch, um alto funcionário público russo reformado, ao saber desta crise perto da zona onde habita, decide tomar a seu cargo a ajuda a esses pobres camponeses, para isso tenta criar uma espécie de comissão entre os ricos e poderosos da área para resolver esse problema.
Quando começa a coordenar as acções, descobre que a sua mulher, muito mais nova, bonita e com um carácter forte, mas com quem practicamente não tem relações nenhumas e as que tem são conturbadas, chegando inclusivé a viver em partes separadas da casa, já lhe tinha tomado a dianteira reunindo um grupo de pessoas à sua volta para isso.
A partir desta situação Tchekov começa a mostrar-nos o verdadeiro Pavel que é uma pessoa muito egoísta, metódica e com quem é difícil manter relações de amizade, mas que através da sua mulher e da descoberta do amor que ainda nutre por ela e juntamente com uma série de situações onde ele se apercebe do seu verdadeiro carácter, começa a descobrir-se a si próprio e a ter percepção do que a sua vida verdadeiramente é, uma vida de solidão.
Este pequeno livro, é uma lição de vida, mostra-nos como uma pessoa mesmo inconscientemente e com as mais nobres intenções, consegue prejudicar a vida dos outros e a sua felicidade.
Este livro, na edição original da Quasi e na versão distribuida pelo Diário de Notícias, tem também a particulariedade de ter sido traduzido pelo Luiz Pacheco, o que dá também um toque de ironia, como só ele conseguia fazer, sem nunca fugir ao original.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

António Alçada Baptista

Faleceu ontem aos 81 anos de idade, o escritor e jornalista António Alçada Baptista.
António Alçada Baptista, nascido na Covilhã e licenciado em Direito, foi um grande pensador e escritor, que deixou várias obras de grande qualidade tanto na área do Ensaio como no romance.
Considerando-se a si próprio como "escritor de afectos" e "com uma sensibilidade feminina", traços que são bastante evidente nas suas obras, foi igualmente um defensor da liberdade e dos direitos dos Homens.
As suas obras mais conhecidas são provavelmente as Peregrinação do Interior I - Reflexões sobre Deus e Peregrinação do Interior II - O Anjo da Esperança, obras estas que lhe valeram a sua consagração perante o público e a crítica.
Para além da literatura também esteve envolvido na política, foi presidente do Instituto Português do Livro e um dos fundadores da revista O Tempo e o Modo.
Foi ainda agraciado com várias condecorações e prémios nacionais e estrangeiros.
Com este desaparecimento de Alçada Baptista, a cultura e a literatura portuguesa ficam de facto mais pobres.
Uma grande perda para todos nós.

A Herança de Eszter - Sándor Márai


Já que ando numa de livros pequenos em tamanho mas grandes em qualidade, aqui fica outro que li a seguir ao A Morte de Ivan Ilitch que se enquadra nessa categoria:
A Herança de Eszter - de Sándor Márai.
Sándor Márai, escritor húngaro de quem já falei aqui sobre outro livro que li dele, Rebeldes, traz-nos esta pequena história de um amor mal resolvido e de uma separação de mais de 20 anos.
Eszter, apaixonada por Lajos, um homem sem escrúpulos, vigarista, ambicioso e mentiroso, que casou com a irmã mais velha dela, está há mais de 20 anos sem o ver e sem ter notícias dele, vivendo pacatamente na sua casa de família apenas com uma tia mais velha como companhia, até ao dia em que recebe um telegrama a avisa-la da chegada de Lajos.
A partir daí vem ao de cima todo um conjunto de emoções, dúvidas e certezas acerca do seu amor por lajos e por tudo o que passou nesses 20 anos devido a ele.
Com a chegada de Lajos, com os seus filhos e mais dois estranhos acompanhantes inicia-se um desfilar de conversas, de situações contraditórias, desabafos, descobertas surpreendentes e outras mentiras, terminando com a "queda" de Eszter nas "garras" de Lajos sendo enganada novamente, embora com plena consciência e permissão dela para isso, apesar dos avisos dos amigos mais chegados.
Sándor Márai com este livro fala-nos do amor, do destino, das leis da vida e da nossa força ou fraqueza perante essas forças que se juntam ou separam transformando a nossa vida de várias formas.
Mais um dos livros que recomendo a sua leitura, pequeno, com uma escrita simples mas também muito directa.

domingo, 7 de dezembro de 2008

A Morte de Ivan Ilitch - Lev Tolstoi


Terminei de ler este pequeno livro em tamanho mas grande em qualidade que é A Morte de Ivan Ilitch do grande escritor Russo Lev Tolstoi.
Tolstoi com esta pequena história, muito directa, simples e sem rodeios, traz-nos a temática da morte e a forma como a aceitamos ou não e a sua implicação perante tudo, desde quem morre às pessoas que as rodeiam e que com ela (morte), poderão beneficiar ou não e as implicações que isso traz para o resto das suas vidas.
Ivan Ilitch, juiz que sempre teve uma vida "boa" e sem problemas, apesar do seu relacionamento conturbado com a sua esposa, adoece e começa lentamente a afundar-se nesse estado que vai aumentando lentamente de dia para dia, começando inicialmente por interferir com o normal desempenho da sua vida profissional e pessoal, e aumentado até culminar com a sua morte.
No periodo em que ele já se encontra em casa e impossibilitado de sair da mesma devido à doença, Ivan Ilitch faz uma regressão e análise profunda do que foi a sua vida e o significado da mesma, todas as suas acções, boas ou más, o seu casamento, a relação nada fácil com a esposa, os filhos, etc..
Este livro está considerado como um dos melhores da literatura mundial, gostei bastante de o ler, pequeno mas com uma escrita muito directa, por vezes crua que nos faz pensar "como será a nossa vez?" e "qual será realmente o nosso sentido de vida?".
Li a edição Booket da Dom Quixote, que para além de ser acessível à bolsa traz um prefácio de António Lobo Antunes, em que ele diz: "(…) não há sentimento que nele não figure, não há emoção que não esteja presente. Tudo o que somos se acha em poucas páginas, escrito de uma forma magistral".
Esta frase resume todo o livro.
Espero que gostem.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Expiação - Ian McEwan


Com este post, provavelmente irei contra a corrente em relação a este livro. Mas como este blog não é de crítica literária mas sim onde deixo a minha opinião sobre os livros que leio, vou ser sincero, como sempre sou mesmo que vá "contra a corrente".
Este livro, criou-me muitas expectativas, muita gente me disse bem dele, o filme baseado nele fez um sucesso estrondoso e eu próprio que já tinha lido outras coisas de Ian McEwan e tinha gostado, por isso tudo prometia que ia ser igual com este livro.
Mas para mim este livro foi uma desilusão!
Talvez por ter ouvido tanto sobre ele, tenha criado uma imagem na minha cabeça e depois de o ler, essa realidade fica muito aquém daquilo que esperava.
O livro estruturalmente está muito bom, o Ian McEwan é um óptimo escritor, com provas dadas e a história até tem muito potencial...
O problema é que na minha opinião (e desculpem a expressão) este livro está demasiado "lamechas"!
Tudo bem que a história talvez a isso obrigue, é uma história de amor, separação, intriga e arrependimento, mas na minha humilde opinião ele perde muito tempo na narrativa, na descrição de sentimentos e até mesmo de lugares.
A primeira parte do livro, onde eles ainda são todos jovens e onde se dá o "acontecimento" que é o mote da história, é muito maçudo. Por um lado é interessante a parte dos mesmos acontecimentos serem vistos pelos pontos de vista dos diferentes intervenientes mas ao mesmo tempo isso torna-se um pouco repetitivo e é também a meu ver a parte onde ele se deixa levar mais pela descrição sentimental e amorosa.
A segunda parte anos mais tarde e passada durante a 2ª Guerra Mundial, mais propriamente na retirada de França, já está melhor mas podia ter sido mais bem explorada a nível de acção, claro que este não é um livro de guerra, mas esse cenário podia ter sido mais aproveitado.
A terceira parte, para mim ainda é a melhor, gostei da descrição dos hospitais e da chegada dos feridos de França e da vida na Londres dessa época.
No geral o livro é bom, tem qualidade e não lhe nego esses atributos, talvez a culpa não seja do livro mas minha, por não ligar muito a essa temática do sentimental e emocional a nível do amor entre duas pessoas.
Por vezes parecia que estava a ler uma "tragédia grega".

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Da Condição Humana - Ary dos Santos


Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira - Direito de resposta

Eme disse...
"(...) nomedamente para mulheres"?!?!?!?
Mas que comentário tao machista!!!
Aconselho-te a rever esses preconceitos...já não fazem nenhum sentido...

Minha cara (presumo) Eme, desde já peço desculpa pela má impressão que te deixei pelo texto do meu post sobre o Ensaio Sobre a Cegueira.
Quando eu fiz este último parágrafo:
"Em relação ao livro aconselho-o, mas deixo desde já a advertência que tem passagens um pouco fortes para pessoas mais susceptíveis nomeadamente para as mulheres."
Nunca foi com nenhum pensamento machista, coisa que, quem me conhece pode desde já afirmar-te que não sou! Antes pelo contrário, sempre tive o maior apreço e consideração pelas Mulheres, defendendo inclusivé que são mais inteligentes que os Homens.
Posto isto, a razão da existência deste parágrafo é relativa à parte (e aqui presumo que tenhas lido o livro), em que as mulheres são obrigadas a serem violadas para poderem ter comida.
Esta parte, que se a mim como Homem me impressionou, chegando mesmo a revoltar-me, imagino nas mulheres... (pensei eu).
Mais uma vez ficam as minhas desculpas e espero continuar-te a ter como visitante deste blog.
Pipas

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Tempo dos Imperadores Estranhos - Ignacio Del Valle



Mira que te mira Dios;
mira que te está mirando;
mira que vas a morir;
mira que no sabes cuándo.


Quando aparece um soldado morto em plena Rússia durante a II Guerra Mundial, isso não é fora do comum, mas quando esse soldado morto se encontra degolado e completamente sem sangue, já não é normal, menos normal ainda, é quando no corpo se encontra gravada o primeiro verso da quadra acima posta, (Mira que te mira Dios).
Este é o mote para este livro cuja acção se passa na frente russa durante a II Guerra Mundial, mais propriamente na Divisão Azul, um exército de voluntários espanhóis que lutaram juntamente com os Alemães contra os Russos.
Uma sucessão de homicídios, rituais maçónicos, um soldado com um passado problemático e um sargento com problemas gástricos nomeados para descobrir o homicida, mas apanhados na "guerra surda" de interesses entre o exército e os falangistas, são os ingredientes que fazem parte desta história.
O livro tem uma óptima base para ser um bom livro, uma boa temática e personagens complexos mas dá a sensação que falta aguma coisa, penso que a acção poderia ter sido mais explorada, de certeza que se conseguia um livro bem melhor. Para além da parte policial, também temos a parte "existencial" em que as diversas personagens se interrogam e se revelam, quando expostos a situações extremas como foi a guerra na Rússia durante o inverno.
É um livro que se lê bem, aprendem-se alguns factos da história de Espanha e consegue entreter-nos durante algum tempo.
Mais uma vez digo que na minha opinião acho que o livro tinha temática para ser mais explorada e desenvolvida, dá a sensação que falta ali qualquer coisa à medida que vamos lendo e que a acção se desenrola depressa demais.


domingo, 23 de novembro de 2008

Patient - Guns n' Roses


Shed a tear 'cause I'm missin' you
I'm still alright to smile
Girl, I think about you every day now
Was a time when I wasn't sure
But you set my mind at ease
There is no doubt
You're in my heart now

Said, woman, take it slow
It'll work itself out fine
All we need is just a little patience
Said, sugar, make it slow
And we come together fine
All we need is just a little patience

I sit here on the stairs
'Cause I'd rather be alone
If I can't have you right now
I'll wait, dear
Sometimes I get so tense
But I can't speed up the time
But you know, love
There's one more thing to consider

Said, woman, take it slow
And things will be just fine
You and I'll just use a little patience
Said, sugar, take the time
'Cause the lights are shining bright
You and I've got what it takes
To make it, We won't fake it,
I'll never break it
'cause I can't take it

...little patience
need a little patience,
just a little patience,
some more patience,
need some patience,
could use some patience,
gotta have some patience,
all it takes is patience,
just a little patience
is all you need

I been walkin' the streets at night
Just tryin' to get it right
Hard to see with so many around
You know I don't like
Being stuck in the crowd
And the streets don't change
But baby the name
I ain't got time for the game
Cause I need you
Yeah, yeah, but I need you
Oo, I need you
Whoa, I need you
Oo, all this time

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A Viagem do Elefante - José Saramago

Terminei de ler o último livro de José Saramago, A Viagem do Elefante e gostei bastante.
O livro tem como personagem principal Salomão/Solimão um elefante indiano que veio da Índia para Portugal no séc. XVI que depois foi oferecido como presente pelo Rei D. João III ao seu primo o Arquiduque da Aústria Maximiliano II.
A acção e história do mesmo centra-se na viagem entre Portugal e a Aústria, e nas peripécias que o elefante e restante comitiva enfrentaram.
Para além de Salomão/Solimão também entra outro personagem chave na história que é o seu tratador ou "cornaca", o indiano Subhro/Fritz, que funciona como personagem chave e de ligação entre o elefante, as restantes personagens e a acção propriamente dita.
Como não há muitas informações e dados concretos e históricos sobre esse acontecimento, Saramago escreveu o livro com acontecimentos ficcionados, num tom de conversa entre amigos e com muita ironia à mistura.
Saramago considera este seu livro como uma metáfora da vida.

"[Contei esta história] em primeiro lugar, porque me apeteceu, e em segundo lugar, porque, no fundo - se quisermos entendê-la assim, e é assim que a entendo - é uma metáfora da vida humana: este elefante que tem de andar milhares de quilómetros para chegar de Lisboa a Viena, morreu um ano depois da chegada e, além de o terem esfolado, cortaram-lhe as patas dianteiras e com elas fizeram uns recipientes para pôr os guarda-chuvas, as bengalas, essas coisas", referiu Saramago.
"Quando uma pessoa se põe a pensar no destino do elefante - que, depois de tudo aquilo, acaba de uma maneira quase humilhante, aquelas patas que o sustentaram durante milhares de quilómetros são transformadas em objectos, ainda por cima de mau gosto - no fundo, é a vida de todos nós. Nós acabamos, morremos, em circunstâncias que são diferentes umas das outras, mas no fundo tudo se resume a isso".

Achei este livro absolutamente delicioso, com uma escrita simples e agradável (o antípoda do Ensaio Sobre a Cegueira, que li recentemente), que pode ser lido por todos mesmo para quem não aprecie a escrita dele, de certeza que com este livro a sua opinião vai mudar.